Estudo da Unifesp identifica proteína que pode ajudar a barrar metástase de câncer
Pesquisa da Unifesp indica que bloquear a proteína SDC4 pode paralisar a divisão de células tumorais e evitar a disseminação do câncer.
Por Davy Albuquerque
Uma pesquisa conduzida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou que a proteína SDC4 (sindecam-4) pode servir como um alvo terapêutico para combater o câncer. O estudo indica que o bloqueio dessa proteína, presente na superfície das células, é capaz de paralisar a divisão celular de tumores e impedir o mecanismo que permite às células sobreviverem fora dos tecidos originais.
Essa capacidade de sobrevivência em suspensão é o principal fator que facilita a metástase, processo pelo qual o câncer se dissemina para outros órgãos do organismo. Os resultados do trabalho foram publicados em março de 2026 na revista Cytotechnology.
Como a proteína age no câncer?
Em condições normais, as células utilizam a SDC4 para funções de adesão aos tecidos. No entanto, a produção excessiva dessa molécula está associada à progressão da doença. Quando uma célula normal se desprende do seu ambiente, ela sofre um processo natural de autodestruição chamado anoikis (morte por falta de adesão).
Células tumorais agressivas conseguem resistir a esse processo, o que as permite migrar pela corrente sanguínea e colonizar novos órgãos. A superexpressão da proteína SDC4 protege as células tumorais justamente desse tipo de morte celular que ocorre durante o desprendimento do tecido.
Carla Cristina Lopes, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp, aponta que a estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, embora a pesquisa ainda esteja em fases iniciais e precise de validação para cada caso específico.
Resultados dos testes em laboratório
Para entender o mecanismo, pesquisadores realizaram testes com células de vasos sanguíneos de coelhos. Ao forçar as células a ficarem soltas, um pequeno grupo — menos de 5% — conseguiu sobreviver e passou a produzir quantidades exageradas de SDC4, tornando-se altamente agressivo.
Ao utilizarem técnicas de engenharia genética para "silenciar" (desligar) a SDC4 nessas células, os cientistas observaram que elas perderam as características malignas. Sem a proteína, as células voltaram ao estado normal e passaram a depender da adesão física a uma superfície para permanecerem vivas.
O silenciamento do gene da SDC4 também provocou um aumento na produção de p27, uma molécula que funciona como um inibidor natural da divisão celular. Isso ajuda a reequilibrar o ritmo de multiplicação das células, paralisando a proliferação desordenada típica dos tumores.
Próximos passos da investigação
Os pesquisadores agora buscam replicar os resultados em células humanas para avançar em direção ao uso clínico. Além disso, o grupo investiga se o uso de canabidiol (CBD), composto derivado da Cannabis sativa, pode atuar sobre as moléculas de SDC4 para reverter o comportamento maligno das células.
A pesquisa contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), além de recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Finep.
