Mito sobre cores de cobra coral pode causar acidentes graves no Brasil
Regra de identificação por anéis não funciona na fauna brasileira e especialistas alertam para o risco de manuseio de espécies peçonhentas
Por Diário Local
A crença popular de que é possível identificar uma cobra coral verdadeira pela sequência de cores de seus anéis não funciona no Brasil e pode representar um risco grave à população. No território brasileiro, existem 38 espécies de corais-verdadeiras que apresentam uma enorme variedade de padrões, o que impede a identificação segura apenas pela observação das cores à distância.
A identificação visual é dificultada pelo fato de que algumas espécies verdadeiras não possuem os tradicionais anéis vermelhos, pretos e amarelos. Para complicar o cenário, o país abriga dezenas de espécies de corais-falsas que imitam quase perfeitamente a coloração das peçonhentas, um fenômeno biológico conhecido como mimetismo.
Diante do perigo, a recomendação oficial é tratar qualquer animal com esse padrão de listras como potencialmente peçonhento. A orientação é nunca tentar capturar, intervir ou manusear o réptil sozinho. O resgate deve ser feito por órgãos autorizados, como o Corpo de Bombeiros (193) ou a Polícia Militar Ambiental (190).
Por que a identificação visual é difícil?
A semelhança entre as espécies é uma ferramenta de sobrevivência. As cores vivas servem como um aviso para predadores sobre a presença de veneno. Ao longo da evolução, animais não peçonhentos desenvolveram cores parecidas para reduzir ataques.
Segundo o biólogo Luis Felipe Lima, o comportamento natural da cobra, ao encontrar humanos, é tentar fugir ou se esconder. Caso não consigam escapar, elas podem esconder a cabeça sob o corpo ou realizar movimentos de distração. Diferente de outros répteis, como jararacas e cascavéis, elas não costumam dar botes, mordendo apenas em último caso.
Outro ponto de desmistificação refere-se à anatomia da boca. É um mito afirmar que a coral verdadeira tem dificuldade para injetar toxina por ter dentes pequenos. O biólogo explica que os dentes são pequenos, mas ficam localizados na parte da frente da boca, e não atrás.
O que faz o veneno da coral?
O veneno da cobra coral é predominantemente neurotóxico, afetando diretamente o sistema nervoso. As moléculas da substância são pequenas e podem ser absorvidas rapidamente pelo organismo, mesmo em picadas superficiais, interrompendo a comunicação entre nervos e músculos.
Os sintomas graves iniciais incluem visão embaçada, pálpebras caídas e dificuldade para falar. Sem o uso do soro antielapídico, a paralisia pode atingir o diafragma e causar insuficiência respiratória. O tratamento deve ser feito em hospitais de referência com base nos sintomas clínicos, não sendo recomendável tentar capturar o animal para levá-lo ao médico.
Em caso de acidente, as instruções são manter a calma, lavar o ferimento com água e sabão e buscar socorro imediato. Práticas como fazer torniquete, cortar o local da picada, sugar o veneno ou aplicar substâncias como pó de café e pomadas são estritamente proibidas.
