Especialistas explicam fenômeno de ataques contra criadores de conteúdo nas redes sociais
Fenômeno conhecido como 'teoria da sopa de feijão' reflete falta de empatia e filtros pessoais de usuários nas redes sociais.
Por Davy Albuquerque
Especialistas apontam que o crescimento de reações de raiva ou indignação de usuários contra criadores de conteúdo nas redes sociais é impulsionado por uma combinação de fatores psicológicos, tecnológicos e sociais. O fenômeno, muitas vezes chamado de 'teoria da sopa de feijão', ocorre quando internautas questionam publicações que não levam em conta suas limitações, estilos de vida ou necessidades específicas.
O termo surgiu após uma criadora de conteúdo da Flórida publicar uma receita de sopa de feijão vegana para auxiliar no tratamento de anemia. O vídeo gerou uma onda de comentários de usuários questionando substituições de ingredientes e sugerindo alternativas pelo simples fato de não gostarem de feijão, evidenciando uma expectativa de que o conteúdo seja universalmente aplicável.
Para a professora Jessica Maddox, da Universidade da Geórgia, o comportamento é exacerbado pela combinação entre o individualismo e os algoritmos das redes sociais. Segundo a especialista, quando o usuário encontra conteúdo com o qual não se identifica, sente uma raiva irracional, como se houvesse uma 'falha no sistema', tratando a diferença como algo errado.
A psicóloga clínica Micheline Maalouf explica que é comum o processamento egocêntrico, no qual as pessoas filtram o mundo através de suas próprias experiências. Ela observa que muitos usuários podem buscar formas de controle ou de serem vistos através de críticas a estranhos online, reagindo de forma impulsiva a conteúdos que não contemplam suas condições de saúde ou contextos sociais.
Outro ponto levantado por criadores de conteúdo é a tendência de os usuários utilizarem os perfis como se fossem ferramentas de busca, como o Google. Segundo a criadora de conteúdo Sarah Lockwood, os internautas esperam encontrar todas as variações para suas necessidades particulares em um único vídeo, em vez de entenderem que o autor apenas compartilhou algo que funciona para sua própria vida.
As reações de indignação também podem surgir em contextos de rotina e bem-estar. Um exemplo citado envolve publicações sobre rituais matinais ou dicas de saúde, como o uso de alimentos picantes para conter ataques de pânico, que acabam recebendo críticas de pessoas com condições médicas específicas, como diabetes ou pressão alta, que se sentem excluídas pelas sugestões.
Comportamento e letramento digital
A comediante e escritora Temilola Adeoye associa as reações a possíveis deficiências de letramento ou ao desejo de validar o próprio intelecto por meio de correções pedantes. Para ela, o comportamento de corrigir o outro apenas para provar inteligência é algo que deveria ser superado com a maturidade.
Além disso, há a questão da idade dos usuários. Lockwood ressalta que é comum esquecer que muitos usuários das redes sociais são adolescentes de cerca de 11 anos, o que pode influenciar o tom das interações e a capacidade de interpretação de contexto.
O cenário de isolamento causado pela pandemia de Covid-19 também é apontado como um fator de influência. O período intensificou discussões sobre inclusão e visibilidade, o que pode ter gerado em algumas pessoas um sentimento de impotência ou invisibilidade diante de problemas reais e antigos.
Esse contexto pode levar usuários a questionarem a intenção dos criadores, interpretando a ausência de menção a certas exceções ou limitações como um ato de exclusão ou antagonismo. A sensação de desamparo pode ser projetada em criadores comuns, gerando questionamentos do tipo 'e quanto a mim?'.
Especialistas alertam que, embora existam causas legítimas para a busca por inclusão, muitos ataques ocorrem de forma desproporcional. O uso de redes sociais para demonstrar virtude ou para manifestar impaciência e impulsividade acaba prejudicando o debate saudável nas plataformas.
O fenômeno revela como a fronteira entre o conteúdo de entretenimento e a expectativa de suporte pessoal está cada vez mais tênue. O que deveria ser um compartilhamento casual de experiência acaba se tornando um campo de batalha para validar identidades e necessidades individuais.
Em suma, a 'teoria da sopa de feijão' serve como um alerta para a necessidade de maior pensamento crítico e empatia no ambiente digital. A dificuldade de separar o que é uma sugestão pessoal do que é um manual de instruções universal define o tom das novas tensões da era algorítmica.
