Diário Local

Irrigação transforma região historicamente pobre em Goiás em polo de fruticultura

Investimento de R$ 23 milhões em água e tecnologia permite que 80 produtores rurais do Vão do Paranã cultivem maracujá e manga durante todo o ano, gerando renda e retendo jovens no campo.

Por Diário Local

O Vão do Paranã, região no nordeste de Goiás historicamente conhecida pelo apelido de "corredor da miséria", começa a colher os frutos de um investimento que leva água e tecnologia a pequenos assentamentos da reforma agrária. Com financiamento de R$ 23 milhões da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e modelo técnico desenvolvido pela Embrapa, 80 produtores rurais já beneficiam-se de projetos de fruticultura irrigada que garantem renda durante o ano inteiro.

A transformação é visível nas propriedades. Onde antes havia apenas pequenas roças para consumo próprio, agora crescem pés de maracujá e manga em sistemas irrigados. A agricultora Júlia Pereira de Andrade, que durante dois anos precisou buscar água fora de sua chácara para atender necessidades básicas, hoje colhe frutas que garantem receita à família. Ela relata ter faturado cerca de R$ 15 mil em apenas dois meses com a venda de maracujá e abóbora.

A região favorece o acúmulo de água subterrânea graças ao relevo formado pela Chapada dos Veadeiros e pela Serra Geral de Goiás, o que facilita a perfuração de poços artesianos para irrigação. Esse recurso permite que os produtores tenham fonte de renda constante, superando a rigorosa estação seca do Cerrado que marcava o passado da região.

O modelo de produção

Cada agricultor selecionado recebe um kit de irrigação e assistência técnica para cultivar dois hectares. Um hectare é destinado ao maracujá, cultura de ciclo curto que começa a produzir em cerca de seis meses, garantindo retorno financeiro mais rápido. O outro hectare recebe manga, projeto de longo prazo que deve começar a produzir em quatro anos e funciona como uma espécie de "aposentadoria" para o produtor, permanecendo produtivo por décadas.

A produtividade tem surpreendido. Em algumas propriedades, a colheita de maracujá já alcança 30 toneladas por safra, o dobro da média nacional. O resultado financeiro permitiu que famílias investissem em energia solar, eletrodomésticos e melhorias na infraestrutura rural.

Retenção de jovens no campo

O projeto também tem ajudado a conter o êxodo rural. Daniel Rodrigues, 19 anos e formado em agropecuária, decidiu permanecer na propriedade da família após a implantação do sistema irrigado. "Agora meu foco é conseguir plantar mais frutíferas para mim quando eu tiver uma idade mais avançada, não trabalhar tanto e ter uma renda ainda melhor", afirma.

Para outros produtores, como João (marido de Júlia), a fruticultura permitiu abandonar o trabalho temporário em fazendas distantes e passar a trabalhar na própria propriedade. Antes, ele precisava buscar renda fora do assentamento, trabalhando com trator de esteira em propriedades alheias.

Desafios na comercialização

Apesar dos avanços, os produtores ainda enfrentam dificuldades para comercializar as frutas. Sem compradores fixos, muitos dependem de atravessadores e convivem com oscilações de preço e incertezas na venda da produção. Para tentar resolver o problema, agricultores da região criaram uma cooperativa e aguardam a conclusão de uma agroindústria financiada pelo governo estadual.

A expectativa é que, no futuro, maracujá e manga sejam processados localmente e transformados em polpas, agregando valor à produção e permitindo maior controle sobre a comercialização.

Expansão para outros estados

A iniciativa já despertou interesse de outras regiões do país e deverá ser replicada em comunidades rurais da Bahia, Mato Grosso e Minas Gerais. A expectativa é ampliar o atendimento para 250 produtores e alcançar 500 hectares irrigados no Vão do Paranã.

Para agricultores como Edgar Rodrigues, que hoje se define como um pequeno empresário rural, o futuro parece promissor. "Eu sonho alto", afirma. "Ainda vou ver essas mangas sendo vendidas para os Estados Unidos e para onde mais for preciso."

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.