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Investigação

Relatório do Cenipa explica fenômenos de atenção que afetaram pilotos no acidente da Voepass

Relatório aponta que alta carga de trabalho pode ter causado cegueira e surdez por desatenção na cabine em Vinhedo (SP)

Por Redação Diário Local

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que a redução da capacidade da tripulação de perceber e interpretar alertas da própria aeronave foi um dos elementos que contribuíram para a queda do avião da Voepass, em Vinhedo (SP). O acidente, ocorrido em agosto de 2024, resultou na morte de 62 pessoas.

O relatório final, divulgado na quinta-feira (23), utiliza conceitos da psicologia cognitiva para explicar como a alta carga de trabalho na cabine afetou os pilotos. O órgão aponta que os profissionais enfrentavam múltiplos desafios simultâneos durante a fase final do voo.

Segundo os investigadores, a tripulação precisava gerenciar o acúmulo de gelo na aeronave e lidar com falhas no sistema de degelo. Ao mesmo tempo, os pilotos mantinham contato com a torre de controle, realizavam procedimentos de aproximação e realizavam conversas de caráter pessoal.

Nesse cenário de sobrecarga, o Cenipa avaliou que a capacidade de reconhecer alertas visuais e sonoros foi comprometida. O documento destaca que um sinal sobre perda de desempenho foi emitido enquanto os pilotos comunicavam-se com o controle de tráfego, mas as gravações não registraram discussões sobre os avisos.

O que é a cegueira por desatenção?

Para explicar o comportamento, o relatório recorre ao termo 'cegueira por desatenção' (inattentional blindness). Esse fenômeno ocorre quando uma pessoa olha para uma informação, mas o cérebro, concentrado em outra tarefa, deixa de processá-la de forma consciente.

Na prática, isso significa que o olho enxerga o alerta luminoso no painel, mas a informação não chega à consciência do piloto por ele estar totalmente voltado para outra demanda considerada urgente. Não se trata de um problema de visão, mas um fenômeno de processamento da atenção.

O que é a surdez por desatenção?

O relatório também cita a 'surdez por desatenção' (inattentional deafness), que funciona de forma semelhante, mas envolve sons. O alerta sonoro chega aos ouvidos, porém o cérebro deixa de atribuir significado ao estímulo devido à elevada carga cognitiva.

Em uma cabine de comando, diversos sons como comunicações de rádio, ruídos dos motores e avisos eletrônicos podem ocorrer simultaneamente. Quando o cérebro está sobrecarregado, ele atua como um filtro e pode deixar de priorizar alertas importantes.

Por que isso acontece com pilotos experientes?

Especialistas em fatores humanos explicam que esses fenômenos não indicam negligência, distração ou falta de preparo. A neurociência demonstra que o cérebro humano possui limites naturais para processar volumes massivos de dados, realizando uma seleção contínua do que é relevante.

A atenção funciona como um 'holofote': ela ilumina o que está sendo processado conscientemente. Em situações de estresse extremo, mesmo profissionais altamente treinados podem ter a atenção comprometida quando diversos estímulos competem pelos mesmos recursos cognitivos.

Como a tecnologia pode ajudar na prevenção?

O Cenipa aponta que a tecnologia pode ser aprimorada para compensar essas limitações humanas. Após o acidente, a fabricante ATR desenvolveu uma nova versão do sistema de monitoramento de desempenho da aeronave (APM).

A atualização estabelece um intervalo mínimo de 60 segundos para que um alerta desapareça do painel. A medida visa evitar o efeito de 'flickering', quando avisos surgem e somem muito rápido, o que pode fazer com que a tripulação se acostume com as mensagens e lhes dê menos importância.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.