Violência no trabalho cresce e especialistas alertam para riscos de assédio e bullying profissional
Denúncias de violência e assédio no trabalho subiram para 17,5 mil no primeiro semestre de 2026, segundo o Ministério Público do Trabalho.
Por Redação Diário Local
As denúncias de violência e assédio no ambiente profissional registraram um crescimento expressivo no primeiro semestre de 2026. Segundo dados do Ministério Público do Trabalho (MPT), foram reportados 17.590 casos no período, volume que já supera as 16.541 denúncias contabilizadas durante todo o ano de 2024.
Episódios recentes de violência extrema reacenderam o debate sobre o bullying e a violência psicológica no trabalho. No início de agosto (01), em São Bernardo do Campo (SP), um ataque dentro de uma fábrica resultou na morte de três funcionários terceirizados por facadas.
Segundo informações apuradas, o autor do ataque, também terceirizado, foi preso em flagrante, mas tirou a própria vida horas depois na delegacia. A ocorrência gerou impacto direto nas discussões sobre a saúde mental nas organizações.
Poucos dias depois, em Jundiaí (SP), três funcionários de um supermercado atacadista ficaram feridos durante uma briga entre açougueiros. O suspeito afirmou à polícia que sofria bullying no trabalho e que já havia feito ameaças antes das agressões.
Embora o termo "bullying" seja popular, o Ministério Público do Trabalho explica que, no contexto profissional, essas práticas são enquadradas como assédio moral ou violência psicológica. Isso ocorre quando há comportamentos que intimidam, isolam ou desrespeitam o trabalhador.
Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade), ressalta que o assédio não é apenas vertical. A conduta pode ocorrer entre colegas de mesmo nível ou até de subordinados contra gestores.
O coordenador destaca que, independentemente de quem pratique a conduta, a empresa tem o dever de prevenir, apurar e adotar providências para impedir que as práticas continuem. A responsabilidade de garantir um ambiente seguro é da organização.
Como a Justiça do Trabalho trata o bullying?
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) informou que não possui uma jurisprudência consolidada especificamente sobre o termo "bullying" no ambiente profissional. Até o momento, não há um entendimento uniforme da Corte dedicado exclusivamente ao tema de forma autônoma.
No entanto, pesquisas do próprio TST identificam decisões que tratam situações associadas ao bullying sob a ótica do assédio moral. Em diversos casos julgados, os ministros destacaram que cabe ao empregador prevenir e coibir práticas abusivas.
As decisões reforçam que a omissão da empresa diante de condutas humilhantes, discriminatórias ou hostis pode gerar responsabilização jurídica. Isso inclui o pagamento de indenizações por danos morais aos trabalhadores atingidos.
Quais são os sinais de alerta?
Para Ricardo Carlos Pinto, especialista em Segurança do Trabalho, a prevenção exige olhar para além dos riscos físicos. Ele explica que as vistorias tradicionais focam em normas técnicas, mas a violência costuma ter origem na cultura organizacional e nas relações interpessoais.
Sinais de desgaste incluem o aumento de afastamentos por transtornos mentais, o absenteísmo (ausência no trabalho) e o presenteísmo (quando o funcionário trabalha sem condições de saúde). Conflitos na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (CIPA) também são indicadores.
Pinto ressalta que trabalhadores terceirizados devem estar submetidos aos mesmos padrões de segurança e compliance que os empregados próprios. A responsabilidade da empresa contratante inclui monitorar e verificar a efetividade desses controles.
Qual o impacto para quem presencia a violência?
A violência não atinge apenas o agredido. A psicóloga Amanda Amude explica que o silêncio das testemunhas e a reação da empresa influenciam o sofrimento da vítima. Quando a organização minimiza a denúncia ou não intervém, ocorre o que ela chama de vitimização secundária.
O silêncio pode ser interpretado como falta de proteção, intensificando sentimentos de vergonha e isolamento. Para evitar danos maiores, a especialista recomenda que, após um episódio, a empresa priorize o acolhimento e o restabelecimento da sensação de segurança no local.
