Cenário de renda familiar é preocupante e apostas pesam no orçamento, diz economista
Endividamento das famílias acumula altas desde 2015 e gastos com apostas atingiram R$ 62,5 bilhões em 2025, afirma especialista.
Por Redação Diário Local
O cenário da renda familiar no Brasil apresenta um quadro de preocupação devido ao crescimento da inadimplência e ao impacto das apostas online no orçamento das famílias. Segundo análise do economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ricardo Meirelles de Faria, o endividamento teve saltos significativos em momentos de crise, passando de 30% para 50% após o período da pandemia.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que 81,6% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. O levantamento inclui compromissos como faturas de cartão de crédito, uso de cheque especial, carnês de lojas e outras modalidades de crédito.
A situação de escassez de recursos também é evidenciada por levantamento do Serasa, que indica que mais da metade dos trabalhadores no país encerra o mês sem saldo financeiro. Os principais motivos para a falta de dinheiro ao final do período são os gastos com alimentação e contas básicas de sobrevivência.
O histórico do crédito no país começou a se expandir, especialmente no setor imobiliário, a partir da implementação do Plano Real e a consequente baixa da inflação. No entanto, Meirelles de Faria explica que, em períodos de crise, o aumento das taxas de juros acaba acumulando um peso maior sobre o orçamento doméstico.
Atualmente, a taxa Selic está em 14% ao ano, patamar que coloca o Brasil com o segundo maior juro real do mundo, ultrapassado apenas pela Rússia. Entre os motivos para esse nível de juros, o economista-chefe do Grupo Lev, Jason Vieira, aponta o elevado endividamento público.
De acordo com Vieira, o Estado gasta mais do que arrecada e precisa recorrer ao mercado de títulos para financiar suas atividades, o que eleva o risco para os investidores e encarece o crédito. Além disso, a instabilidade geopolítica causada pela guerra no Irã dificulta cortes na Selic pelo risco de alta na inflação e nos combustíveis.
O peso das apostas no orçamento
Um fator adicional que agrava a vulnerabilidade financeira é a expansão das apostas online, as chamadas 'bets'. Segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), o setor de apostas movimentou R$ 62,5 bilhões em 2025.
A entrada desse novo gasto no cotidiano das famílias é vista como um agravante para quem já enfrenta dificuldades. Para o professor Meirelles de Faria, o uso de recursos em jogos de azar em um cenário de fragilidade financeira representa uma tragédia para o orçamento doméstico.
