Tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros afetam exportações e ameaçam empregos no setor de calçados
Medidas comerciais americanas atingem 23,1% das exportações para os EUA; setor calçadista estima perda de 5 mil empregos.
Por Redação Diário Local
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre diversos produtos brasileiros começam a impactar a atividade industrial e o nível de emprego no país, com efeitos mais concentrados no setor calçadista. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as medidas comerciais anunciadas pelo governo americano em julho alcançam 23,1% das exportações brasileiras para o mercado estadunidense, com 16,5% desses produtos sujeitos a uma sobretaxa acumulada de 37,5%.
O impacto das taxas americanas é sentido de forma distinta nos setores produtivos. No curto prazo, economistas e representantes industriais apontam que o principal reflexo não deve se manifestar diretamente nos preços ao consumidor brasileiro, mas sim na atividade das empresas e na manutenção de postos de trabalho.
Como o setor de calçados é afetado?
O setor de calçados é um dos mais expostos à nova política comercial. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil exportou 7,38 milhões de pares de calçados para o mercado americano, gerando uma receita de US$ 120,5 milhões. Em comparação com o mesmo período de 2025, o volume exportado caiu 4,1%, enquanto a receita recuou 22,8%.
A Abicalçados, entidade que representa o setor, estima que a queda nas exportações de calçados em 2026 possa chegar a 7,1%, superando a previsão anterior de 3,6%. A entidade também projeta um risco para o mercado de trabalho: caso as tarifas sejam mantidas, pode haver uma perda de mais de 5 mil empregos diretos ainda no segundo semestre.
O cenário gera o que a entidade chama de "efeito pinça". De um lado, as empresas perdem mercado nos EUA; de outro, enfrentam a concorrência de produtos importados no Brasil, que cresceram 9,6% entre janeiro e agosto, com destaque para itens vindos da China, Vietnã e Indonésia.
Fabricantes de estados como São Paulo já relatam mudanças operacionais. Em Franca (SP), empresas precisaram renegociar contratos com compradores americanos, reorganizar linhas de produção e buscar novos fornecedores para reduzir custos e compensar a retração das vendas.
Qual o reflexo para o consumidor brasileiro?
Sobre o impacto nos preços de itens como o açúcar, o cenário não é de uma relação automática. Se os produtores brasileiros tiverem dificuldade em vender para os Estados Unidos, podem redirecionar parte da produção para o mercado nacional, o que, em tese, poderia pressionar os preços para baixo ou limitar altas.
Contudo, esse movimento depende de variáveis como o câmbio, os preços internacionais e a demanda. No setor sucroenergético, o açúcar brasileiro está entre os itens sujeitos à sobretaxa de 25% prevista na medida específica para o Brasil, enquanto o etanol permanece no centro de disputas comerciais entre os dois países.
Outros setores também sentem a pressão. A indústria de máquinas e equipamentos enfrenta o desafio de um mercado externo restrito pelas tarifas somado a um mercado interno enfraquecido por juros elevados e baixo nível de investimentos.
