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Cultura

Artista da Zona Leste cria série que representa Exus e Pombagiras como trabalhadores da periferia

Série do multiartista Ezio Rosa traz novas representações de entidades de matriz africana através de entregadores e pessoas em situação de rua

Por Redação Diário Local

O multiartista Ezio Rosa, de 32 anos, desenvolveu a série artística "Santinhos do Novo Mundo", que propõe uma nova perspectiva sobre entidades das religiões de matriz africana. O projeto busca aproximar figuras como Exus e Pombagiras da realidade cotidiana das periferias e das pessoas que vivem à margem da sociedade.

Morador da Zona Leste de São Paulo, o artista utiliza uma combinação de esculturas físicas e obras em ambiente digital para retratar as entidades. Entre as representações, aparecem Exus utilizando mochilas de entregadores de aplicativos e Pombagiras inspiradas em mulheres trans, profissionais do sexo, trabalhadores da reciclagem e pessoas em situação de rua.

Com nove anos de vivência no candomblé e no dofono de Logunedé, Ezio Rosa afirma que a série surgiu da necessidade de construir um novo imaginário social. Segundo o artista, o objetivo é criar representações que não excluam grupos em vulnerabilidade social ou identidades diversas.

O trabalho utiliza elementos do cotidiano para humanizar as entidades. Ezio menciona que as obras buscam refletir pessoas como o jovem que frequenta bailes funk, o motoboy de aplicativos e a mulher trans que busca sua sobrevivência.

As obras do projeto são fruto de processos criativos distintos. Algumas esculturas nascem de sonhos, enquanto outras são inspiradas em conversas com amigos ou na observação de pessoas encontradas nas ruas durante a rotina de trabalho.

Embora parte das peças seja materializada fisicamente, outras existem apenas no formato digital e são compartilhadas nas redes sociais do artista. O criador afirma que não faz questão de separar o que é físico do que é virtual, pois entende que a ideia passa a existir assim que é compartilhada.

A trajetória de Ezio começou no teatro, área que serviu como sua primeira forma de expressão artística. O artista relata que o incentivo da mãe para participar de oficinas culturais foi decisivo para que ele seguisse o caminho das artes e se distanciasse da violência das ruas.

As referências para a criação continuam sendo as pessoas do dia a dia, como vizinhos e transeuntes. Para o multiartista, as esculturas funcionam como uma reflexão sobre as mazelas sociais, dialogando especialmente com as populações negra, periférica e indígena.

O que são Exus e Pombagiras?

Exus e Pombagiras são entidades fundamentais em religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé. Diferente de estereótipos que as associam ao mal, essas figuras são vistas como guardiãs dos caminhos e responsáveis pela proteção e orientação.

Na tradição religiosa, essas entidades atuam como mensageiras entre o mundo material e o divino. Elas são frequentemente associadas às encruzilhadas, que simbolizam movimento, escolha e transformação.

Ezio Rosa defende que a compreensão dessas histórias passa pelo entendimento da experiência humana. Ele destaca que as entidades possuem nuances, tendo sido baseadas em figuras que vivenciaram paixões, sofrimentos e conflitos de vida.

Para o artista, as representações de um entregador de aplicativo ou de um catador de recicláveis são formas de mostrar que essas entidades estão próximas da realidade atual do povo.

Como é a recepção da série?

A recepção do projeto entre os praticantes das religiões de matriz africana apresenta divisões. Enquanto uma parte do público aceita a proposta artística, outros membros da comunidade consideram que as novas imagens rompem com os padrões tradicionais de representação.

Sobre o debate entre tradição e inovação, Ezio Rosa pontua que o mundo passa por mudanças constantes. Ele defende que as representações religiosas podem e devem dialogar com as transformações sociais contemporâneas.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.