Passageiros de metrô em São Paulo diversificam leituras entre romances, biografias e autoajuda
Diversidade de gêneros, como suspenses e obras de motivação, marca o hábito de passageiros que aproveitam o tempo no transporte
Por Redação Diário Local
Passageiros que utilizam o metrô de São Paulo têm transformado o tempo de deslocamento em momentos de leitura, com hábitos que variam entre romances, suspenses, biografias e obras de desenvolvimento pessoal. Durante as viagens diárias, os usuários aproveitam o tempo nos vagões para avançar em histórias escolhidas por indicações de amigos, influência de redes sociais ou busca por inspiração.
A diversidade de gêneros encontrados nos trens reflete diferentes perfis e necessidades. Na Linha 2-Verde, por exemplo, é possível encontrar desde obras de ficção, como o romance "A Neblina", de Luís de Oliveira, até biografias com foco em superação, a exemplo de "Nada Pode me Ferir", do ex-militar norte-americano David Goggins.
Para o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, de 29 anos, a leitura de biografias de superação ganhou um novo significado após perder uma das pernas em 2023. Ele utiliza o tempo no metrô para ler a história de Goggins, que o ajuda a encontrar motivação para enfrentar desafios cotidianos.
Outro perfil comum é o de passageiros que adaptam o hábito de ler à rotina intensa de trabalho e cuidados familiares. A enfermeira Tamires Moraes, de 38 anos, por exemplo, utiliza os cerca de 40 minutos diários de trajeto entre as estações Saúde, na Zona Sul, e Trianon-Masp, na região central, para ler a obra de suspense "Ecos da Floresta", da escritora Liz Moore.
Como as redes sociais influenciam a leitura?
O fenômeno das comunidades digitais, especialmente o BookTok no TikTok, tem sido um motor para a popularidade de certos autores entre o público jovem. Títulos de escritoras como Colleen Hoover ganham destaque nos vagões devido a essas recomendações virtuais feitas por influenciadores e comunidades de leitores.
O jovem aprendiz Kauã Sousa, de 18 anos, relata que aproveita o trajeto de volta para casa, quando os vagões costumam estar menos cheios, para ler obras como "Novembro, 9". O movimento digital tem sido apontado por especialistas como uma forma de aproximar novos públicos da literatura e de eventos como a Bienal do Livro.
A escritora e doutoranda em literatura Bruna Paiva observa que as redes sociais, especialmente após a pandemia, ajudaram a construir um desejo por novos autores entre os jovens. Segundo ela, a leitura no transporte público é uma forma prática de aproveitar momentos disponíveis na rotina, e não necessariamente uma tentativa de chamar atenção.
O hábito de ler no transporte público e o cenário nacional
O comportamento de leitura nos vagões é documentado desde 2016 pelo jornalista Fernando Piovezam, por meio do projeto "Vi Você Lendo". O acervo registra centenas de imagens de passageiros com diferentes formatos, desde livros físicos e de poesia até leitores digitais e celulares.
No entanto, o interesse observado individualmente nos trilhos contrasta com o panorama geral do país. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, os não leitores tornaram-se maioria no território nacional, com mais da metade da população não tendo lido nenhum livro no período do levantamento.
Os dados revelam ainda que o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Esse cenário de queda geral, contudo, encontra uma resistência específica nas novas gerações.
Dados da Câmara Brasileira do Livro apontam um crescimento no consumo de obras entre jovens de 18 a 34 anos. Esse aumento é impulsionado principalmente pelas redes sociais e pela formação de comunidades de leitores no ambiente digital.
Para especialistas, o tipo de livro escolhido — seja um clássico ou um best-seller — não deve ser uma barreira para a formação de novos leitores. O importante é a constante busca por conhecimento ou entretenimento, independentemente do gênero escolhido.
