Documentos mostram que Juscelino Kubitschek foi monitorado pelos EUA durante a ditadura militar
Relatório do Departamento de Estado revela que embaixador americano sabatinou o ex-presidente em 1970 no Rio de Janeiro
Por Redação Diário Local
Documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos revelam que Juscelino Kubitschek foi monitorado pela inteligência norte-americana durante o regime militar no Brasil. Relatórios detalham que o ex-presidente foi sabatinado por uma comitiva liderada pelo embaixador americano no país em dezembro de 1970, no Rio de Janeiro.
O material, que inclui sete páginas datilografadas e com indicação de confidencialidade, foi relatado pelo embaixador William Manning Rountree e data de 5 de janeiro de 1971. Na época, dez anos após o fim de seu mandato presidencial, Kubitschek tinha seus direitos políticos cassados pelo regime de exceção liderado por Emílio Garrastazu Médici.
Especialistas apontam que a postura de Kubitschek, marcada pelo nacionalismo e pelo desejo de modernização econômica autônoma, era vista como uma ameaça aos interesses de Washington. O monitoramento de líderes latino-americanos era uma prática padrão dos Estados Unidos para manter a hegemonia na região durante a Guerra Fria.
Por que JK era monitorado pelos EUA?
De acordo com analistas e historiadores, o governo americano via Kubitschek como uma figura política com grande apelo popular e inclinações que poderiam desafiar a influência dos Estados Unidos no continente. O ex-presidente era interpretado como um "termômetro" da política nacional, representando um grupo que não era radical de esquerda, mas que também não apoiava o regime militar.
O interesse dos Estados Unidos também se deveu às intenções de Kubitschek de disputar novas eleições. Documentos de 1967 já registravam o acompanhamento de movimentos de sua aliada, Conceição Neves, sobre a organização de uma Frente Ampla contra o regime na época.
O material faz parte de uma vasta coleção de documentos compilados pelo historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As páginas detalham como a Casa Branca acompanhava os passos de lideranças brasileiras para entender o cenário político interno.
O que dizia o relatório sobre a conversa de 1970?
No encontro realizado no apartamento de Kubitschek, em Copacabana, o ex-presidente admitiu reconhecer o histórico econômico do governo Médici, mas declarou-se politicamente contrário à revolução de 1964. Ele expressou preocupação com a atuação da linha-dura e com o enfraquecimento das lideranças civis no Brasil.
Kubitschek também teceu críticas à política internacional dos Estados Unidos, definindo a postura do presidente Richard Nixon como "desinteressada" e classificando como um "erro" o apoio americano ao armamento de ditaduras militares na América Latina. O ex-presidente afirmou ainda que a destruição da liderança democrática servia para que o regime militar justificasse a manutenção do poder indefinidamente.
Juscelino Kubitschek faleceu em um acidente automotivo em 22 de agosto de 1976. Em maio de 2026, um relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou o entendimento de que sua morte foi resultado de uma emboscada armada por agentes da ditadura.
