Espiões russos usam Japão para contrabandear tecnologia militar para a guerra na Ucrânia
Agentes da inteligência russa utilizam o Japão como base para comprar e roubar componentes de alta tecnologia para a máquina de guerra do Kremlin.
Por Davy Albuquerque
Agentes da inteligência militar russa estão utilizando o Japão para adquirir e contrabandear tecnologia essencial para o esforço de guerra na Ucrânia. Segundo funcionários de cinco agências de inteligência ocidentais, uma unidade secreta russa, a 20ª Diretoria, opera no país sob o disfarce de diplomatas ou empresários para roubar ou comprar componentes de alta tecnologia.
O uso de componentes japoneses é recorrente no armamento russo. Estimativas do governo ucraniano indicam que cerca de 90% dos mísseis e drones utilizados pela Rússia contêm peças fabricadas no Japão. Em maio, após um ataque de um míssil de cruzeiro Kh-101 contra um prédio em Kiev, investigadores encontraram componentes japoneses nos destroços, apesar de serem itens com exportação proibida para o Kremlin.
Como funciona a operação em Tóquio?
A operação em Tóquio teria como base o escritório da companhia aérea estatal russa Aeroflot. Autoridades de quatro agências de inteligência afirmam que o responsável por supervisionar as atividades da 20ª Diretoria no Japão utiliza uma identidade secreta de funcionário da referida companhia para coordenar o abastecimento da máquina de guerra russa.
O oficial Maksim Vladimirovich Filchenkov, de 49 anos, assumiu o cargo em Tóquio em fevereiro de 2024. Segundo inteligência ocidental, ele teria desenvolvido relações com empresas de logística para facilitar o envio de equipamentos sensíveis para a Rússia, utilizando, por vezes, registros de envio fraudulentos para contornar restrições.
Para viabilizar o transporte, o grupo utiliza rotas indiretas. Empresas de logística, como a Proco Air, atuam como pontes, alugando espaço de carga em voos para países onde a Aeroflot opera, como Uzbequistão ou Sri Lanka. A carga é coletada nesses locais e levada para o território russo, um método que permite o fluxo de mercadorias sem violar diretamente as rotas proibidas.
A vulnerabilidade do Japão
O Japão tem sido apontado como um ponto vulnerável devido às suas leis de espionagem consideradas brandas e à ausência de uma agência de inteligência estrangeira própria. O país possui restrições de espionagem impostas após a Segunda Guerra Mundial que mantêm seus serviços de inteligência limitados.
Embora o governo japonês afirme trabalhar com aliados ocidentais para proibir a exportação de itens militares para a Rússia, parlamentares locais expressam preocupação. Akihisa Shiozaki, membro do Partido Liberal Democrático, afirmou que há uma sensação de crise em relação à capacidade do país de enfrentar essa situação de espionagem industrial.
O Ministério das Relações Exteriores do Japão declarou, por meio de comunicado, que a agressão russa contra a Ucrânia abala a ordem internacional e que o governo tem atuado para impedir o envio de material de uso militar ao Kremlin.
