Bairro brasileiro em Newark 'respira' durante Copa após anos sob cerco de Trump
O Ironbound, reduto de imigrantes portugueses, brasileiros e equatorianos, passa por segundo ano sob fiscalização federal intensificada, mas celebra torneio com bandeiras nas ruas.
Por Diário Local
As bandeirinhas começam no topo das janelas e descem até as calçadas do Ironbound, bairro do Newark, em Nova Jersey. Verde e amarelo do Brasil se alternam com vermelho e verde de Portugal e amarelo do Equador nas vitrines de restaurantes e padarias da Ferry Street, principal via do bairro.
A música que sai das caixas de som muda de porta em porta — cumbia, funk, reggaeton — enquanto as camisas que passam pelas ruas contam a história de um torneio disputado ao mesmo tempo em três países com 48 seleções.
"Em todas as Copas que eu estou aqui, em todos esses 38 anos, essa superou todas", disse José Moreira, dono de cinco restaurantes na região, enquanto preparava o salão para receber o fluxo de torcedores. "Para o meu negócio, está maravilhoso."
Mas essa celebração acontece sob uma sombra que paira há mais de um ano sobre a comunidade: desde 2025, o Ironbound está oficialmente na lista do governo Trump como alvo prioritário de fiscalização de imigração.
Dois séculos de ondas migratórias
O Ironbound recebe imigrantes há quase duzentos anos — portugueses, italianos, poloneses, brasileiros, cabo-verdianos e equatorianos. O nome vem das ferrovias que cercaram a região no século 19 — "ironbound" significa "cercado de ferro".
Os imigrantes alemães chegaram nos anos 1830, seguidos de poloneses e italianos no final do século. Os portugueses vieram a partir dos anos 1920, vindos inicialmente de New Bedford e Pawtucket, atraídos pelo trabalho nas fábricas químicas, cervejarias e curtumes. Em 1926, a Diocese de Newark criou uma paróquia luso-espanhola para atender à crescente comunidade.
Em janeiro de 1995, o New York Times publicou uma reportagem que resumia aquele momento com o título: "Em Newark, imigração sem medo". O texto descrevia como pessoas que décadas antes corriam pelas ruas quando uma van da imigração aparecia tinham se tornado proprietárias dos comércios ao longo da Ferry Street.
A partir dos anos 1980, à medida que a comunidade portuguesa envelheceu e parte se mudou para os subúrbios, uma nova onda de imigrantes chegou, atraída pela infraestrutura já estabelecida: igrejas, padarias, associações. Os brasileiros, impulsionados pela crise de hiperinflação no Brasil, vieram primeiro, seguidos por cabo-verdianos e equatorianos, grupos de crescimento mais rápido.
Segundo dados do Censo americano de 2022, cerca de 15 mil pessoas de ascendência brasileira vivem em Essex County, o condado onde fica Newark — o dobro do registrado no Censo de 2000. No Ironbound especificamente, estimativas do setor imobiliário apontam que 26% dos moradores têm ascendência brasileira e quase metade da população fala português em casa.
De santuário a alvo de fiscalização
Durante décadas, Newark funcionou como o que comunidades imigrantes nos Estados Unidos chamam de "cidade-santuário": um lugar onde as autoridades locais não cooperam ativamente com a fiscalização federal de imigração. Para quem chegava sem documentação, era uma promessa de relativa segurança.
Kalani Mubarak, filho do fundador do restaurante Boi na Brasa, que opera no Ironbound desde 1995, lembra daquele tempo. "Quando eu era menininho, com 5, 6 anos de idade, a comunidade aqui nem se preocupava com deportação. Era sempre uma cidade santuário para os imigrantes. Tu chegava aqui, de qualquer país que fosse, e sabia que seria acolhido."
Essa realidade mudou em 2025. Em agosto, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou uma lista de jurisdições-santuário identificando alvos prioritários de fiscalização. Newark estava na lista, ao lado de Chicago, Los Angeles e Nova York.
Em 23 de janeiro de 2025, três dias depois da posse do presidente Trump, agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) realizaram uma operação no Ocean Seafood Depot, um depósito de frutos do mar dentro do Ironbound. Três funcionários foram levados sob custódia.
O prefeito de Newark, Ras Baraka, emitiu comunicado condenando a ação: "Agentes do ICE invadiram um estabelecimento local em Newark, detendo residentes sem documentação, bem como cidadãos, sem apresentar mandado. Newark não ficará de braços cruzados enquanto pessoas são ilegalmente aterrorizadas."
Em novembro do mesmo ano, o mesmo depósito foi alvo de uma segunda operação, desta vez com mais de duas dúzias de agentes. Cerca de 20 pessoas foram interrogadas e detidas.
Impacto na vida cotidiana
O medo se instalou na comunidade rapidamente e se traduziu em comportamento concreto. "Eles ficaram com medo de sair de casa para qualquer coisa e estavam ficando mais em casa, pedindo delivery, fazendo a própria comida", disse Mubarak.
José Moreira descreveu o mesmo fenômeno do ponto de vista de quem administra negócios. "Hoje, as pessoas estão buscando ficar mais em casa. Perdemos grandes clientes, grandes amigos, ex-funcionários e funcionários."
Segundo ele, as operações de imigração costumam acontecer em locais públicos, não dentro de estabelecimentos comerciais. "Eles esperam as pessoas na porta de casa, não vão aos negócios. Isso faz com que muita gente ainda se sinta mais segura para ir a um restaurante. Porque, imagina, se tivessem prendido alguém dentro de um restaurante, ninguém mais iria frequentar."
Centro de detenção e protestos
A menos de dois quilômetros do restaurante Boi na Brasa fica o centro de detenção de Delaney Hall, com capacidade para mil pessoas, operado pela empresa privada GEO Group sob contrato com o ICE.
O próprio prefeito Ras Baraka foi preso pelo ICE em frente ao centro em 9 de maio de 2025, ao tentar acompanhar uma visita de fiscalização do Congresso ao local. Baraka havia saído da área de acesso controlado e estava em espaço público quando agentes federais o cercaram, algemaram e levaram para dentro do centro. A acusação de invasão de propriedade foi depois retirada.
Em maio de 2026, cerca de 300 detentos iniciaram uma greve de fome denunciando condições precárias, falta de assistência médica e alimentos estragados. Os protestos do lado de fora resultaram em confrontos com a polícia, toque de recolher e ao menos 50 prisões em uma única noite. O secretário de Segurança Interna negou que houvesse greve de fome.
Para quem mora no Ironbound, a presença do centro de detenção a poucos quarteirões não é abstrata. Histórias de clientes e vizinhos detidos circulam pela comunidade — relatos que aumentam o medo e a ansiedade daqueles que temem pela deportação.
Mas durante a Copa, o bairro respira de forma diferente. As bandeiras nas janelas, a música nas ruas e o fluxo de torcedores trazem alento momentâneo a uma comunidade que segue navegando a tensão entre a celebração de suas raízes e a incerteza do presente.
