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Filosofia

Djamila Ribeiro explica conceito de 'lugar de fala' e critica distorções no debate sobre racismo

Em entrevista, filósofa rebate ideia de que o conceito serve para silenciar pessoas e discute desigualdades no acesso à produção intelectual.

Por Redação Diário Local

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro explicou o significado do conceito de "lugar de fala" e criticou interpretações que utilizam o termo para tentar silenciar interlocutores. Segundo a autora, o conceito não funciona como uma proibição de fala, mas como um reconhecimento de que diferentes posições sociais oferecem diferentes perspectivas sobre um mesmo objeto de análise.

Em entrevista, Djamila afirmou que o termo tem sido alvo de equívocos de interpretação, sendo usado de forma irresponsável por influenciadores e no marketing de influência para gerar engajamento. Para a escritora, o "lugar de fala" diz respeito a de onde se fala, e não ao que se fala, sendo fundamental para entender as estruturas que geram desigualdades.

A filósofa rebate a ideia de que o conceito funcione como um "lugar de calar" ou um impedimento para que pessoas brancas ou homens discutam questões raciais e de gênero. Ela argumenta que, na realidade, o que existe é um interdito social já estabelecido, e o conceito busca investigar por que certas vozes são colocadas como as únicas possíveis no debate público.

Desigualdade na produção intelectual

Para ilustrar a necessidade de discutir os lugares sociais, Djamila citou um dado da Universidade de Brasília (UnB) que indicava que, até 2014, 90% dos livros publicados no Brasil eram escritos por pessoas brancas. Ela utiliza o dado para demonstrar como a hegemonia privilegia determinadas vozes e limita o acesso de grupos negros e indígenas à produção de conhecimento.

A escritora ressaltou que pessoas que ocupam lugares de privilégio podem e devem falar sobre a questão racial, mas devem fazê-lo a partir de sua própria posição social. Segundo ela, eximir as pessoas brancas do debate sobre o racismo seria desresponsabilizá-las de lutar contra uma estrutura que as privilegia.

Djamila também mencionou que a simplificação dos conceitos por parte de criadores de conteúdo acaba por esvaziar debates importantes com o objetivo de monetizar pautas. Ela relatou que muitas críticas que recebe nas redes sociais partem de pessoas que sequer leram suas obras, o que considera uma falta de respeito com o trabalho intelectual realizado.

Trajetória e ambiente familiar

Ao relembrar sua trajetória, a filósofa descreveu o contraste entre o ambiente de segurança em sua casa e a realidade enfrentada na escola. Filha de um militante do movimento negro, de uma mulher do candomblé e de uma avó benzedeira, Djamila afirma que cresceu em um ambiente que incentivava o orgulho de sua identidade.

No entanto, ela relatou que, durante a fase escolar, enfrentava um currículo que não abordava esses temas e era alvo de piadas racistas naturalizadas. A escritora descreveu como era doloroso lidar com a exclusão no ambiente escolar por destoar do que era esperado de uma menina negra na época.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.