Indústria adiciona proteína a ultraprocessados para criar falso efeito de saudabilidade
Estratégia de incluir proteína em produtos como biscoitos e sorvetes pode mascarar excesso de açúcar, sódio e gordura.
Por Redação Diário Local
A indústria de alimentos tem adotado a estratégia de adicionar proteína a produtos ultraprocessados para criar uma percepção de saudabilidade, processo conhecido no setor como "health halo" (halo de saúde). A prática consiste em incluir um nutriente em alta demanda em alimentos como biscoitos, sorvetes e bebidas para que o consumidor os perceba como opções melhores, mesmo que mantenham altos teores de açúcar, sódio e gordura saturada.
O movimento reflete uma tendência observada nos anos 1990, quando a adição de cálcio e vitaminas era utilizada em produtos similares para atrair o público. Atualmente, a proteína tornou-se o foco principal das embalagens, acompanhando uma mudança no comportamento de consumo e nas necessidades nutricionais da população.
Por que a demanda por proteína cresceu?
O aumento na oferta de produtos "high protein" (alto teor de proteína) é impulsionado por necessidades médicas e biológicas reais. O uso de medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, por exemplo, tem gerado um aumento na preocupação com a ingestão proteica, já que usuários desses fármacos podem perder uma parte significativa do peso total como massa magra, e não apenas gordura.
Além disso, o envelhecimento da população e a prática de exercícios físicos intensos elevam a necessidade de preservar a musculatura. Segundo a Mintel, o mercado de proteína e seus derivados já movimenta 114 bilhões de dólares.
Em 2024, o setor apresentou um crescimento acelerado: empresas lançaram 97 produtos que trazem a palavra "proteína" no nome, o que representa mais que o dobro do registrado no ano anterior.
Como identificar o excesso de nutrientes ocultos?
Especialistas alertam que o número de proteína destacado no rótulo não anula a presença de outros componentes prejudiciais. Um produto pode conter 10 gramas de proteína, mas ainda apresentar 30 gramas de açúcar, o que não o torna uma escolha nutricional equilibrada.
Para avaliar a real qualidade de um alimento, é necessário analisar a lista de ingredientes e considerar três pontos principais:
Primeiro, deve-se verificar a quantidade de sódio, gorduras e aditivos que acompanham o nutriente. Segundo, é preciso identificar o tipo de proteína; enquanto o whey e a proteína do ovo são consideradas completas, o colágeno hidrolisado não deve ser confundido com proteína para construção muscular.
Por fim, deve-se questionar se a suplementação via ultraprocessados é realmente necessária. Para a maioria das pessoas, a ingestão proteica pode ser atingida de forma natural através de alimentos como ovos, carnes, peixes, feijão, arroz e iogurte natural, que dispensam o uso de selos de marketing.
