Estudo identifica mais de 40 mil novos vírus em cidades de 31 países
Levantamento com participação brasileira catalogou quase 55 mil espécies virais em ambientes como metrôs, hospitais e esgoto.
Por Redação Diário Local
Um mapeamento global identificou a existência de dezenas de milhares de vírus desconhecidos pela ciência circulando em ambientes de grande movimento humano. O estudo, que contou com participação brasileira, analisou 2.922 amostras em 102 cidades de 31 países, incluindo São Paulo, e catalogou 54.945 espécies de vírus de RNA, das quais aproximadamente 77% nunca haviam sido descritas anteriormente.
Os dados foram consolidados no UPVAtlas (Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos) e detalhados em artigo publicado na revista Nature Communications. A pesquisa focou em microrganismos encontrados em locais de fluxo constante, como estações de transporte, hospitais, agências bancárias e redes de esgoto.
Como os vírus foram identificados?
A maioria das amostras foi coletada pelo consórcio MetaSUB entre março e julho de 2020. O protocolo consistiu no uso de cotonetes (swabs) em superfícies de contato frequente, como corrimãos, bancos e máquinas de bilhetes. Outras amostras foram obtidas de solo, sedimentos, água doce e esgoto.
Para o processamento, os pesquisadores utilizaram a técnica de metatranscriptômica, que sequencia o conjunto de moléculas de RNA de uma amostra simultaneamente. A triagem das sequências foi realizada com o auxílio do geNomad, uma ferramenta de bioinformática que determina quais fragmentos correspondem a genomas de vírus.
Os cientistas compararam as sequências de uma enzima presente em todos os vírus de RNA para reconstruir as relações de parentesco. Devido à originalidade de alguns achados, foram propostas a criação de novos filos e uma nova classe de vírus, embora a proposta ainda seja preliminar e dependa de mais informações computacionais.
Quais são os riscos para humanos?
A descoberta de novos vírus não implica que as cidades estejam repletas de agentes causadores de doenças em seres humanos. A equipe conseguiu propor um potencial hospedeiro para cerca de um terço das sequências analisadas, e, desse grupo, mais da metade corresponde a vírus que infectam bactérias.
No entanto, uma pequena parcela tem potencial de infectar vertebrados. Ao cruzar os dados com a base The Global Virome in One Network (VIRION), os pesquisadores identificaram 60 vírus com alta probabilidade de infectar humanos e 47 com potencial para afetar outros mamíferos. Desses 60 casos de potencial humano, 19 foram encontrados em ambientes urbanos.
O estudo também encontrou 166 bacteriófagos (vírus que atacam bactérias) com histórico de infecção em linhagens de bactérias de importância clínica, o que pode abrir caminhos para pesquisas sobre o uso desses vírus no combate a patógenos, por meio da fagoterapia.
O papel do esgoto e da diversidade urbana
O levantamento mostrou que superfícies urbanas comuns, como ruas e lojas, apresentam uma diversidade viral menor do que ambientes naturais, como o solo. O esgoto, contudo, foi a exceção, apresentando uma das maiores diversidades do estudo, o que reforça sua utilidade para o monitoramento ambiental.
A pesquisa também servirá para comparar o que existe nas cidades hoje com o cenário de décadas futuras, permitindo investigar como as comunidades virais evoluem e se adaptam aos diferentes ambientes e localizações.
