Pesquisa da USP liga uso de tabaco aquecido ao risco de esclerose múltipla
Estudo realizado pela USP indica que a nicotina de produtos de tabaco aquecido afeta o sistema imune e pode favorecer a progressão da esclerose múltipla.
Por Redação Diário Local
Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP investigou como a nicotina de produtos de tabaco aquecido e de cigarros convencionais afeta o sistema imunológico. O estudo aponta que a exposição a esses produtos é capaz de reprogramar a função de células de defesa, o que pode favorecer a progressão da esclerose múltipla em jovens e adultos.
A investigação, que utilizou experimentos com animais, células humanas e modelos alternativos, identificou que a nicotina presente em ambos os tipos de produtos agrava sintomas clínicos e a neurodegeneração em modelos experimentais. A pesquisa levanta preocupações sobre os chamados produtos sem fumaça, como os dispositivos de tabaco aquecido.
Como a nicotina afeta a esclerose múltipla?
A esclerose múltipla é uma doença autoimune que atinge o sistema nervoso central. Nela, o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, que é a membrana responsável por envolver as células nervosas e permitir a transmissão de impulsos nervosos. O ataque pode causar perda de mobilidade e problemas sensoriais ou locomotores.
Segundo o biomédico Pablo Scharf, que conduziu o doutorado sobre o tema, a doença possui fatores genéticos e ambientais. Para pessoas que já possuem uma predisposição genética, o uso de dispositivos de tabaco pode servir como um gatilho para o surgimento da doença ou para o agravamento do quadro já existente.
O pesquisador destacou que o padrão de uso desses novos dispositivos de tabaco é comum entre jovens e jovens adultos, público que é frequentemente afetado por essa condição neuroinflamatória.
Os métodos da pesquisa
Para entender as respostas imunológicas, a equipe utilizou três abordagens: testes in vitro com células de pacientes, modelos animais e o estudo do verme C. elegans, que funciona como um modelo alternativo para investigar comportamentos neuroimunes. No caso do verme, a exposição à nicotina alterou a defesa contra certas bactérias.
Nos testes in vitro, foram utilizadas amostras de sangue de pacientes do Departamento de Neurologia do Hospital da Santa Casa de São Paulo. Os pesquisadores isolaram os linfócitos TCD4+, que são as principais células envolvidas no desenvolvimento da esclerose múltipla, para observar como a exposição simulada às tragadas mudava a biologia dessas células.
Já nos testes com animais, foram usados camundongos com doença semelhante à esclerose múltipla. Os resultados mostraram que, quando a exposição ao tabaco aquecido ou ao cigarro convencional ocorre logo no início da doença, o quadro tende a piorar. Em simulados de pessoas sem sintomas, a exposição prévia aos produtos também gerou estímulos que podem levar ao desenvolvimento da patologia.
