Diário Local
Tecnologia

Câmeras com inteligência artificial buscam prever crimes e geram alerta sobre privacidade

Sistemas de policiamento preditivo usam IA para identificar padrões de comportamento, mas especialistas alertam para riscos de erro e vigilância

Por Redação Diário Local

Sistemas de monitoramento que utilizam inteligência artificial (IA) prometem antecipar crimes ao identificar padrões de comportamento suspeitos. A tecnologia, conhecida como policiamento preditivo, busca detectar situações fora do comum antes que resultem em delitos, transformando câmeras de segurança convencionais em ferramentas de análise ativa.

O processo de identificação ocorre por meio da conversão de imagens em metadados, que são sequências numéricas que representam elementos do vídeo. Ao serem treinados com imagens de rotinas consideradas normais, esses sistemas conseguem emitir alertas quando detectam uma alteração nesse padrão, como uma movimentação atípica em uma via pública ou em um ambiente privado.

Como funciona o policiamento preditivo?

O sistema não toma decisões de forma autônoma. No modelo utilizado pela empresa NoLeak, os alertas gerados são enviados para um sistema de gestão de vídeo, cabendo ao operador humano decidir pela ação, como acionar a polícia ou a equipe de segurança privada. O fundador da empresa, Nicolau Ramalho, explica que o sistema precisa de cerca de duas semanas de análise de dados para formar uma base suficiente para reconhecer padrões de imagem.

A ferramenta analisa movimentações e não características físicas. Segundo Ramalho, o sistema não identifica o rosto para analisar o comportamento, focando apenas na transformação da imagem em dados para o reconhecimento de padrões. Além da segurança, a tecnologia pode ser usada em indústrias para verificar se funcionários estão em seus postos ou se há falhas em linhas de produção.

Quais são os riscos apontados por especialistas?

Apesar da promessa de eficiência, especialistas manifestam preocupação com a falta de transparência e o impacto na privacidade. Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), alerta que a opacidade das ferramentas dificulta a avaliação de sua eficácia e pode levar a erros que atingem cidadãos comuns durante o cotidiano.

O risco de vieses e de vigilância excessiva foi observado em casos internacionais, como o do sistema PredPol, nos Estados Unidos. O programa, que deixou de ser usado pela polícia de Los Angeles em 2020, foi criticado por potencializar patrulhamentos em bairros de baixa renda e por aumentar abordagens em comunidades específicas, em vez de focar na eficiência criminal.

O que diz a legislação brasileira?

No Brasil, o uso dessas tecnologias não possui uma lei específica, mas deve seguir as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), especialmente no que diz respeito ao tratamento de dados sensíveis, como a biometria facial. Uma portaria do Ministério da Justiça e Segurança Pública, publicada em 2025, estabelece que as forças policiais podem utilizar IA, desde que haja revisão humana em casos de risco a direitos fundamentais.

Há também um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que visa classificar sistemas de IA usados para análise de perfis comportamentais como de alto risco. O texto, que já passou pelo Senado, prevê que tais ferramentas tenham supervisão humana constante, passem por avaliações de impacto e garantam o direito à explicação para as pessoas afetadas.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.