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Em novo livro, Gabe Bullard analisa impactos da tecnologia no consumo de notícias

Obra discute relação entre conveniência digital, métricas de engajamento e a sustentabilidade do setor jornalístico.

Por Redação Diário Local

O mercado de notícias enfrenta um paradoxo em que o acesso massivo à informação convive com o crescimento da desinformação e do conteúdo partidário. De acordo com o autor Gabe Bullard, em seu livro “Against Convenience” [Contra a Conveniência], a busca constante por facilidade tecnológica pode estar prejudicando a sustentabilidade do jornalismo de qualidade.

A obra analisa como hábitos de consumo modernos impactam a indústria e questiona se as ferramentas digitais realmente melhoram a vida dos usuários. Bullard sugere que o público muitas vezes aceita soluções mais fáceis, mas que entregam um conteúdo de menor valor e profundidade.

Uma das principais críticas do autor recai sobre as decisões estratégicas de editores nas primeiras fases da era digital. Baseando-se no ensaio de Richard J. Tofel, Bullard aponta que a indústria de jornais cometeu um erro fundamental ao entregar conteúdo de forma gratuita na internet, o que Tofel descreve como um prejuízo estrutural para o setor.

Ao perseguir a ideia de que a informação deveria ser livre e moderna, muitos veículos ignoraram os custos necessários para manter a produção jornalística. Esse movimento tornou as notícias online convenientes, mas enfraqueceu a capacidade de financiamento dos produtores de conteúdo.

O autor compara esse cenário ao que ocorreu nos setores de música e fotografia, onde a facilidade de distribuição digital gerou impactos financeiros negativos para os criadores originais. A gratuidade digital, embora atraente para o consumidor, não sustentou a estrutura de custos da apuração profissional.

Por que as métricas digitais podem ser enganosas?

Outro ponto central da análise é o uso de dados para direcionar o conteúdo editorial. Bullard argumenta que os dados digitais muitas vezes não dizem o que parecem dizer, servindo para medir ações, mas não necessariamente o interesse ou a fidelidade do público.

Métricas como o número de cliques ou visualizações de páginas são descritas como arbitrárias. O autor exemplifica que um tema pode atrair visualizações apenas por ser impulsionado por algoritmos de redes sociais, e não por representar uma demanda real de interesse profundo do leitor.

A dependência dessas métricas para atingir metas de visualização pode desviar o foco das redações. Editores acabam priorizando temas que geram engajamento rápido e controvérsias, em vez de investir em pautas que cumprem a função social de informar a sociedade.

Para o autor, o volume de informações disponíveis hoje é maior do que nunca, mas o conhecimento sobre o que realmente importa para o público tornou-se mais superficial. O foco em métricas de vaidade pode transformar veículos de prestígio em "sombras" do que foram no passado.

O impacto no jornalismo de investigação

O livro também destaca o declínio da reportagem autoral devido à dependência de plataformas externas. Com a migração do público para redes sociais e mecanismos de busca, o jornalismo passou a ser moldado pelo que já está em alta na internet.

Bullard observa que houve uma transição do jornalismo investigativo para um modelo baseado em comentários. Em vez de realizar apurações de campo e conversas diretas com fontes, muitos profissionais passaram a escrever sobre debates que já ocorriam nas redes sociais.

Sobre essa transição, o editor Mark Guiducci explicou que o Google influenciou o setor ao levar tanto o público quanto os jornalistas a produzirem conteúdo sobre o que já estava em alta, tornando a reportagem autoral uma "arte perdida".

Essa dinâmica cria um ciclo onde se produz cada vez mais opinião sobre cada vez menos reportagens originais. O esforço de investigação, que exige tempo e recursos, acaba perdendo espaço para a velocidade do que é viral no ambiente digital.

A conclusão do autor não é um abandono da tecnologia, mas um chamado para o uso consciente. Ele defende que não é necessário renunciar à conveniência, mas garantir que o progresso tecnológico trabalhe em favor da qualidade da informação, e não contra ela.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.