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Tecnologia

Uso de IA para tarefas superficiais gera 'workslop' e prejuízo de US$ 9 milhões para empresas

Fenômeno de conteúdos superficiais gerados por inteligência artificial causa retrabalho e perda de produtividade em grandes organizações.

Por Redação Diário Local

A pressa das empresas em incorporar ferramentas de inteligência artificial (IA) ao cotidiano profissional deu origem ao fenômeno conhecido como "workslop". O termo, que pode ser traduzido livremente como "trabalho desleixado", descreve tarefas geradas por sistemas automatizados que, apesar de apresentarem linguagem técnica e aparência profissional, são superficiais e oferecem pouco valor prático.

De acordo com um levantamento da BetterUp Labs, realizado em parceria com o Stanford Social Media Lab, 40% dos trabalhadores afirmam ter recebido algum conteúdo que se enquadra nesse conceito. O estudo estima que 15,4% de todo o material recebido pelos profissionais caia na categoria de conteúdos sem profundidade ou utilidade real.

A necessidade de revisar, corrigir ou refazer esses materiais gera um custo direto para as organizações. Segundo a BetterUp Labs, os colaboradores gastam, em média, 1 hora e 56 minutos para lidar com cada ocorrência de "workslop". Esse tempo representa uma perda estimada de US$ 186 por mês para cada funcionário afetado.

Em escala corporativa, o impacto financeiro é expressivo. Em uma organização com 10 mil trabalhadores, o prejuízo anual com produtividade desperdiçada pode ultrapassar US$ 9 milhões. O efeito em cadeia ocorre porque, sempre que um conteúdo superficial entra no fluxo, alguém precisa assumir o conserto, seja preenchendo lacunas ou corrigindo interpretações equivocadas.

O neurocientista Miguel Nicolelis classifica o fenômeno como uma espécie de "atalho intelectual". Para ele, existe uma crença de que a tecnologia seria capaz de substituir etapas fundamentais do pensamento humano, resultando em tarefas que antes exigiam construção de conhecimento sendo delegadas a sistemas que produzem respostas nem sempre confiáveis.

A especialista em trabalho da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Luciana Morilas, observa que a velocidade da entrega nem sempre acompanha a qualidade. Segundo Luciana, embora os sistemas organizem volumes gigantescos de dados, eles não compreendem o contexto, as prioridades ou as particularidades de um negócio específico.

A falta de preparo também é um fator crítico. A especialista aponta que muitas pessoas utilizam os sistemas de IA sem o treinamento adequado e sem entender quais ferramentas são apropriadas para cada atividade. Isso cria a tentação de transformar a tecnologia em um atalho permanente, o que compromete a entrega final.

A ausência de regras claras agrava o cenário no Brasil. Um relatório da IBM indica que 87% das organizações brasileiras não possuem práticas formais de governança para o uso de inteligência artificial. Isso significa que a adoção da tecnologia tem avançado de forma mais rápida que a criação de políticas e mecanismos de supervisão.

O custo da supervisão e do retrabalho

O trabalho gerado pela IA não desaparece quando é malfeito; ele apenas muda de mãos. Profissionais de tecnologia relatam que, embora a ferramenta agilize processos, a necessidade de validação permanece sob a responsabilidade humana. O desenvolvedor João Quessada exemplifica que o sistema pode, por vezes, confundir a ordem lógica de uma tarefa, exigindo ajuste manual.

Diogo Ferreira, profissional da área de tecnologia no setor de agronegócio, reforça que é preciso conhecer profundamente o assunto para identificar falhas. Para ele, ao aprofundar a análise, percebe-se que as soluções propostas pela IA podem ser genéricas demais ou carecer de contexto essencial para a tomada de decisão.

Impacto na saúde e nas relações de trabalho

Além dos prejuízos financeiros, o "workslop" afeta diretamente o clima organizacional e a colaboração entre equipes. A BetterUp Labs aponta que 53% dos trabalhadores sentem irritação ao lidar com conteúdos superficiais, enquanto 38% relatam confusão ou uma sensação de desrespeito ao terem que refazer o que deveria ter chegado pronto.

O fenômeno também revela um descompasso de expectativas entre diferentes níveis hierárquicos. Um estudo global do Upwork Research Institute, feito com 2,5 mil profissionais, mostra que, enquanto 96% dos executivos acreditam que a IA aumentará a produtividade, 77% dos trabalhadores afirmam que a carga de trabalho efetivamente aumentou.

Esse aumento de demanda, somado à necessidade de supervisão constante, tem gerado impactos na saúde mental. O mesmo levantamento do Upwork revela que 81% dos líderes aumentaram as expectativas sobre suas equipes após a adoção da IA, enquanto 71% dos trabalhadores relatam sinais de burnout.

Com a rápida expansão das ferramentas, o debate corporativo deve migrar da velocidade de entrega para a importância da governança e do pensamento crítico. A tendência é que as empresas busquem estratégias para reduzir os riscos de dependência tecnológica e garantir que a automação não comprometa a qualidade e a confiança mútua entre os colaboradores.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.