Família Adams lucra US$ 320 milhões com venda de ações antes de investigação antitruste nos EUA
Venda de participação na produtora de ovos Cal-Maine ocorreu semanas antes de Departamento de Justiça americano notificar empresa sobre apuração de preços.
Por Diário Local
A família Adams, descendente do fundador da Cal-Maine Foods, uma das maiores produtoras de ovos dos Estados Unidos, lucrou US$ 320 milhões com a venda de sua participação majoritária na companhia em abril de 2025. A transação ocorreu semanas antes de o Departamento de Justiça americano notificar a empresa sobre uma investigação antitruste.
A venda foi realizada em 15 de abril de 2025, período próximo ao pico histórico das ações da Cal-Maine. Na ocasião, foram vendidas quase 3 milhões de ações a US$ 92,75 cada. Além disso, a Cal-Maine recomprou outras 551,8 mil ações da família por cerca de US$ 50 milhões, utilizando um programa de recompra de US$ 500 milhões anunciado pouco antes.
Por que a empresa é investigada?
O Departamento de Justiça e 17 procuradores-gerais estaduais acusam a Cal-Maine, a Hickman’s Egg Ranch e a Versova de coordenarem, entre junho de 2022 e março de 2025, um esquema para inflar os preços dos ovos. Segundo a denúncia apresentada na Corte Federal Distrital de Iowa, as empresas teriam manipulado as cotações da Urner Barry Publications, empresa de inteligência que publica o índice de referência do setor.
O mecanismo de manipulação envolveria a coordenação de lances para simular demanda e inflar o índice de referência. As cotações da Urner Barry são fundamentais, pois, embora monitorem apenas cerca de 10% do mercado, servem de base para os contratos que definem o preço dos outros 90% dos ovos vendidos a supermercados e restaurantes nos EUA.
Entre as práticas apontadas pelos promotores estão a realização de um grande número de lances de compra e a colocação de múltiplas empresas licitando simultaneamente para simular uma demanda diversa. Também foram citados lances concentrados em horários específicos e ofertas que poderiam não ser concretizadas para deixar evidências de preços elevados no índice.
Qual o acordo proposto?
Em 30 de junho, foi anunciado um acordo proposto para encerrar a disputa sem admissão de culpa. Cal-Maine, Versova e Hickman’s concordaram em pagar um total de US$ 3,3 milhões para o grupo de estados participantes e doar 53 milhões de ovos para bancos de alimentos. O acordo ainda aguarda aprovação do tribunal.
Pelo acordo, a Cal-Maine pagaria US$ 1,5 milhão, a Hickman’s US$ 1 milhão e a Versova US$ 800 mil. As empresas também se comprometeram a interromper comunicações com concorrentes sobre preços e licitações, além de adotar programas de conformidade (compliance) antitruste por cinco anos.
A Cal-Maine, a Versova e a Mantiqueira (proprietária da Hickman’s) negaram irregularidades. As empresas atribuíram a alta nos preços a fatores como o surto de gripe aviária, a pandemia de covid-19 e a inflação. O lucro líquido da Cal-Maine saltou para US$ 1,2 bilhão no ano fiscal encerrado em maio de 2025, contra US$ 277,9 milhões no período anterior.
