Alta do petróleo reacende alerta para inflação e pode travar queda dos juros no Brasil
Disparada internacional da commodity gera preocupação sobre inflação, câmbio e o ritmo de redução da taxa Selic no país
Por Diário Local
A disparada nos preços internacionais do petróleo, impulsionada pela escalada de conflitos entre Estados Unidos e Irã, reacendeu o alerta para a inflação, o câmbio e a taxa de juros no Brasil. Na tarde desta quarta-feira (8), o barril do tipo Brent registrou alta de mais de 8%, sendo negociado a US$ 80,15, enquanto o tipo WTI saltou 7,5%, chegando a US$ 75,74.
Embora o Brasil seja um produtor e exportador da commodity, o mercado avalia que o país segue exposto ao cenário externo. A variação do preço internacional impacta diretamente os custos de combustíveis, fretes e a cadeia de produção nacional, além de influenciar o valor do dólar.
Por que a alta do petróleo ameaça os juros?
O risco central, segundo analistas de mercado, é que o choque de preços se torne persistente caso as tensões no Oriente Médio continuem ameaçando a oferta global ou o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Em um cenário de preços elevados por tempo prolongado, o Banco Central pode ter menos espaço para reduzir a taxa Selic de forma acelerada.
Peterson Rizzo, da Multiplike, explica que o movimento reúne duas frentes de pressão: o risco sobre o Estreito de Ormuz e a volta das sanções americanas ao petróleo iraniano. Para ele, um barril mais caro encarece combustíveis e fretes, dificultando a trajetória de queda da inflação, ao mesmo tempo em que aumenta a procura global por proteção, o que pressiona o câmbio.
A análise é reforçada por Rebecca Nossig, da Nomad, que destaca que o petróleo caro representa um choque de custos na cadeia produtiva mundial. Isso pode levar bancos centrais, como o Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos), a manterem juros restritivos por mais tempo para conter a inflação, estimulando a fuga de capitais de países emergentes para ativos considerados mais seguros.
O impacto na economia brasileira
Mesmo com a produção doméstica, o Brasil não está blindado contra o choque. Valdir Piran Jr., da Intra Asset, afirma que uma alta prolongada pode pressionar energia, combustíveis e custos de produção, afetando as expectativas de inflação e a curva de juros. Empresas com margens reduzidas ou dependentes de importações costumam sentir os efeitos primeiro.
André Luiz Haas Caruso, da Pilar Capital, complementa que o país importa derivados e sofre efeitos indiretos em setores como transporte, alimentos e indústria. A piora no ambiente global também tende a fortalecer o dólar frente ao real, gerando pressão adicional sobre os preços internos.
Alberto Friggi, da Friggi & Secco, observa que o efeito pode aparecer no índice de inflação (IPCA) por meio de custos logísticos. Segundo ele, o Banco Central monitorará se a alta do petróleo contamina as expectativas de inflação e os preços administrados antes de decidir sobre os juros.
Riscos e oportunidades no mercado
A situação divide os impactos no mercado financeiro. André Matos, da MA7 Negócios, aponta que o movimento beneficia produtoras de petróleo, mas pesa sobre setores sensíveis a juros e combustíveis, como aviação, varejo e construção civil. O principal ponto de atenção segue sendo o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
