Guerra no Golfo Pérsico eleva inflação na América Latina e Caribe, alerta Cepal
Conflito afeta preços de combustíveis e alimentos na região, embora exportadores de petróleo possam ter melhora nas receitas fiscais.
Por Davy Albuquerque
A guerra no Golfo Pérsico impacta as economias da América Latina e do Caribe principalmente por meio da inflação, segundo alerta da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). O conflito afeta os preços de combustíveis e produtos básicos, gerando pressões que se estendem aos custos de transporte e logística na região.
Apesar da exposição comercial e logística direta ser limitada — com as exportações regionais para a área do conflito representando apenas 1,4% do total e as importações 0,7% —, o canal de transmissão de preços é o mais visível. O choque energético tem gerado variações nos índices de preços ao consumidor (IPCs) em diversos países.
No Brasil, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 12 meses registrou 3,81% em fevereiro, saltou para 4,72% em maio de 2026 e recuou para 4,64% em junho. O fenômeno também foi observado no Chile, onde a inflação passou de 2,4% em fevereiro para 4% em abril, e no Peru, que saiu de 2,2% para 4% no mesmo período.
Como o choque energético afeta os preços?
O impacto inflacionário ocorre por duas vias: direta e indireta. A via direta depende do peso dos combustíveis na cesta de consumo e da atuação dos governos em amortecer o repasse de custos. A via indireta acontece por meio do transporte e da distribuição de bens, elevando custos logísticos e de comercialização para todo o ecossistema econômico.
A Cepal utiliza cálculos que consideram o repasse de 60% das variações internacionais de combustíveis aos preços finais. Em um cenário de barril de petróleo a US$ 86, a inflação anual poderia subir entre 0,3 e 1,7 ponto percentual. Em um cenário mais grave, com o barril a US$ 115, o impacto direto pode superar 4,6 pontos percentuais.
No caso específico do Brasil, o impacto adicional na inflação pode variar entre 1,1 e 2,9 pontos percentuais, dependendo da intensidade do choque nos preços internacionais.
Quais os riscos para o setor agrícola brasileiro?
O encarecimento dos fertilizantes representa um risco direto aos rendimentos das colheitas e aos preços dos alimentos. O Brasil é considerado particularmente exposto a esse canal, uma vez que cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados.
A agricultura brasileira, que tem na soja seu principal produto (representando 20,4% das exportações em abril de 2026), depende fortemente desse fornecimento externo. A escassez ou o aumento de preços de matérias-primas estratégicas pode prejudicar o saldo comercial no médio prazo.
Além disso, embora o Brasil seja exportador de petróleo bruto, o país possui limitações na capacidade de refino interna. Isso obriga a importação de derivados essenciais, como o diesel, o que torna o impacto do conflito no saldo comercial de petróleo brasileiro ambivalente.
Impacto na política monetária
O risco inflacionário impõe um dilema aos bancos centrais da região. As autoridades monetárias precisam decidir entre manter ciclos de redução de juros para apoiar a atividade econômica ou priorizar o controle da inflação e a ancoragem das expectativas.
A Cepal adverte que um eventual endurecimento das condições financeiras mundiais pode trazer pressões cambiais, o que limitaria ainda mais a margem de manobra das políticas monetárias locais para estimular o crescimento.
