Tesouro Nacional avalia intervir no mercado de títulos atrelados à inflação com taxas acima de 8%
Governo estuda usar recompra de papéis ou cancelamento de leilões para conter volatilidade e queda de demanda por NTN-Bs.
Por Davy Albuquerque
O Tesouro Nacional monitora o nível elevado das taxas reais dos títulos públicos atrelados à inflação (NTN-Bs), que ultrapassaram os 8% ao ano. O governo estuda utilizar instrumentos de intervenção, como a recompra de papéis ou o cancelamento de novos leilões, para estabilizar o mercado.
A possibilidade de atuação foi sinalizada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que afirmou que o governo está preparado para intervir diante de momentos de estresse. O mercado aguarda ações que possam conter a volatilidade e a pressão sobre os preços desses títulos.
Por que as taxas dos títulos de inflação subiram?
O aumento das taxas deve-se a uma combinação de fatores econômicos e técnicos. A trajetória das contas públicas brasileiras eleva a percepção de risco e a expectativa sobre os juros neutros da economia, tornando as taxas atuais menos atrativas em comparação ao risco assumido.
Além disso, o cenário externo influencia o movimento, com a taxa de títulos americanos de 30 anos atrelados à inflação operando em patamares elevados. No Brasil, há também um problema de demanda: muitos investidores de médio e longo prazo já migraram para esses títulos desde 2022, reduzindo o espaço para novos compradores.
A concorrência de ativos isentos de Imposto de Renda, como CRIs, CRAs, LCIs, LCAs e debêntures incentivadas, também retira investidores dos títulos públicos. Somado a isso, a captação de fundos de previdência, que são compradores tradicionais de papéis longos, teve queda expressiva.
Como funciona a intervenção do Tesouro?
Existem duas estratégias principais que o Tesouro pode adotar para equilibrar o mercado. A primeira é o leilão de recompra, onde o governo atua como comprador para gerar força adicional no mercado. Isso tende a reduzir as taxas e pode gerar ganhos de marcação a mercado para quem já possui os títulos.
A segunda estratégia é o cancelamento de leilões de oferta. Nesse caso, o governo reduz a quantidade de novos títulos colocados no mercado para diminuir a pressão de venda. O Tesouro já utilizou essas ferramentas ao longo de 2026 para gerenciar a volatilidade.
Apesar dos benefícios de curto prazo, especialistas observam limites. O uso de recompras consome o colchão de liquidez do Tesouro e pode encurtar a duração da dívida pública, aumentando a exposição à taxa Selic. Para muitos analistas, a melhora consistente dos títulos depende de uma mudança na percepção da política fiscal.
