Investimentos em inteligência artificial geram paradoxo na inflação dos EUA, dizem especialistas
Aumento da demanda por infraestrutura de IA eleva custos, mas ganhos de produtividade podem reduzir preços no futuro, segundo especialistas.
Por Davy Albuquerque
Os investimentos globais em inteligência artificial (IA) criam um efeito paradoxal na economia dos Estados Unidos, desafiando as projeções de inflação e as decisões do Federal Reserve (Fed). Enquanto a demanda por infraestrutura eleva os custos imediatos, o aumento esperado na produtividade pode atuar de forma oposta, reduzindo os preços no futuro.
O cenário apresenta um dilema para a autoridade monetária norte-americana. De um lado, a escala dos investimentos no setor impulsiona a demanda; de outro, a tecnologia promete transformar a oferta de bens e serviços.
De acordo com o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri, a inteligência artificial está elevando custos e pressionando preços de recursos essenciais. Entre os itens mais afetados estão os chips, a mão de obra especializada e, principalmente, o consumo de energia.
As estimativas para investimentos em infraestrutura no setor superam os US$ 700 bilhões. Esse montante é destinado à construção de data centers e à contratação de profissionais em um mercado de trabalho que já apresenta sinais de aperto.
Por que a IA pressiona a inflação?
A pressão inflacionária decorre do choque de demanda gerado pela necessidade de infraestrutura física. A ata sobre a decisão de juros em junho, divulgada no início de julho, já indicava que os dirigentes do Fed enxergam a construção de data centers como um fator de pressão sobre os preços.
Além da infraestrutura, o consumo de recursos digitais também impacta os custos. O especialista em tecnologia e informação, Arthur Igreja, explicou que o consumo de "tokens" pode ser explosivo para as empresas.
Igreja exemplificou que o gasto com IA tem se tornado uma conta de serviços essenciais, como água ou luz. Ele citou o caso de uma empresa que chegou a gastar US$ 500 milhões com o Claude, modelo desenvolvido pela Anthropic, sem estabelecer limites de uso para os funcionários.
O presidente da autoridade monetária, Kevin Warsh, afirmou na última quarta-feira (15) que o Fed decidirá se a IA será efetivamente inflacionária. Em audiência no Senado, ele admitiu que a tecnologia pode causar turbulência no mercado de trabalho no curto prazo, devido ao impacto mais rápido na demanda do que na oferta.
Contudo, Warsh minimizou os efeitos de longo prazo. Ele ressaltou que o mercado de trabalho permanece estável, com desemprego baixo, e que os investimentos em IA devem ser positivos para a geração de empregos.
Como a IA pode reduzir os preços?
O potencial desinflacionário da tecnologia reside nos ganhos de produtividade. Segundo Bruno Perri, em vez de apenas aumentar a demanda, a IA deve promover uma expansão da oferta, o que tem um efeito essencialmente desinflacionário na economia.
Essa dinâmica altera a forma como o Fed monitora os preços. Se a tecnologia expandir a capacidade de produção de forma eficiente, a pressão sobre os custos unitários tende a diminuir no longo prazo.
Quais os riscos para os juros e para o mercado?
O impacto da IA nos juros norte-americanos é complexo. Especialistas concordam que, se a demanda pressionar preços e expectativas para cima, o Fed pode ser obrigado a adotar uma postura monetária mais restritiva.
Por outro lado, caso os ganhos de produtividade sejam confirmados, pode haver espaço para que os juros se mantenham em patamares estruturalmente mais baixos.
Existe, entretanto, o risco de uma eventual bolha tecnológica. Se os vultosos investimentos não corresponderem aos ganhos de produtividade esperados, pode haver um desarranjo econômico.
Arthur Igreja alerta que uma bolha de IA poderia provocar quedas nas bolsas de valores e instabilidade na política econômica. Esse cenário afetaria diretamente a inflação e as decisões de condução da economia pelos órgãos reguladores.
