Escritor defende olhar atento como motor da criatividade para evitar o piloto automático
Em artigo, Pedro Ivo sugere que o interesse pelas pequenas coisas e o olhar de criança são essenciais para despertar a criatividade.
Por Redação Diário Local
O hábito de observar o cotidiano com curiosidade é fundamental para combater o funcionamento do cérebro em 'piloto automático' e estimular a criatividade. Em artigo publicado nesta sexta-feira (24), o escritor Pedro Ivo defende que o interesse pelas pequenas coisas é o principal elemento para evitar que a rotina apague a percepção da realidade.
Segundo o autor, o cérebro humano busca economizar energia ao identificar percursos habituais, como trajetos de metrô ou rotinas de trabalho. Ao entender que um caminho é sempre o mesmo, o processo de automatização faz com que o indivíduo ignore o cenário ao redor e os personagens que compõem o dia a dia.
Essa eficiência cerebral, embora útil para o deslocamento, pode afetar outras esferas da vida, como o gosto do café ou o rosto de pessoas próximas. Para Ivo, esse distanciamento da realidade é um obstáculo significativo, especialmente para quem trabalha com a escrita e a criação.
O escritor argumenta que a criatividade está diretamente ligada ao interesse. Para ele, é impossível manter o potencial criativo sem estar profundamente interessado em um tema, em um objeto ou na própria vida, algo que a constante distração da atualidade dificulta.
A facilidade de distração no mundo contemporâneo atua como um agente que destrói o interesse pelos detalhes simples. O autor aponta que, ao buscar métodos sofisticados de criação, muitos acabam ignorando a base do processo: a atenção ao que nos cerca.
Como despertar a criatividade?
Para combater a automação do olhar, o autor sugere um exercício de perspectiva: observar o mundo como uma criança pequena o faz. Para uma criança, tudo é novo, o que permite a fascinação por elementos simples, como uma poça d'água ou o voo de um inseto.
O método proposto consiste em despir-se dos nomes e das definições que já atribuímos às coisas. Ivo sugere que o indivíduo tente olhar para um objeto comum, como uma árvore, sem o filtro de saber o que ela é, questionando como seria se nunca tivesse visto algo semelhante.
Como exemplo de prática, o escritor cita observar elementos banais, como um poste de iluminação, sob um novo ângulo. Ao ignorar o rótulo de 'poste', é possível notar detalhes como o mastro de concreto, os fios que se assemelham a tentáculos e as variações de cor da luz emitida.
Essa técnica de 'fingir que não conhece' o que vê permite recuperar a percepção de uma realidade que é, por natureza, vasta e complexa. Para o autor, o cotidiano é repleto de contradições e detalhes que só se tornam visíveis quando a atenção é retomada.
A mudança de comportamento proposta não é restrita aos profissionais da literatura ou das artes. Segundo o texto, qualquer pessoa pode adotar esse olhar para despertar a própria percepção e evitar que a vida passe sem ser devidamente notada.
Como exercício final de autopercepção, o autor propõe um questionamento pessoal diante do espelho. A sugestão é tentar enxergar a própria identidade como se não soubesse que é você, reforçando a importância de questionar o que parece óbvio.
Em suma, a tese defendida é que a criatividade não exige ferramentas tecnológicas ou métodos complexos, mas sim uma postura de interesse e presença diante do mundo. O foco deve ser o resgate da capacidade de se surpreender com o que já é conhecido.
