Agentes russos usam tecnologia do Japão para abastecer máquina de guerra na Ucrânia, diz inteligência
Unidade secreta da inteligência militar russa opera em Tóquio para contrabandear componentes para mísseis e drones usados contra a Ucrânia
Por Davy Albuquerque
Agentes da inteligência militar russa estão utilizando a indústria de alta tecnologia do Japão para contornar sanções e abastecer o esforço de guerra contra a Ucrânia. Segundo autoridades de diversas agências de inteligência ocidentais, uma unidade secreta do Kremlin opera em Tóquio para contrabandear componentes essenciais para mísseis e drones.
O esforço de coleta de inteligência e a compra de equipamentos como microchips, transmissores e maquinário de precisão têm transformado o Japão em um ponto estratégico para a Rússia. Dezenas de espiões que haviam sido expulsos de capitais ocidentais após a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, reapareceram no território japonês.
De acordo com estimativas do governo ucraniano, cerca de 90% dos mísis e drones utilizados pelas forças russas contêm componentes de origem japonesa. A presença desses itens é confirmada por investigações em destroços de armamentos, como o caso de um míssil de cruzeiro que destruiu um edifício residencial em Kiev em maio.
Como funciona a operação de espionagem em Tóquio?
No centro da operação está a 20ª Diretoria, uma unidade da inteligência militar russa (GRU) cuja função não era de conhecimento público. Os agentes atuam disfarçados de diplomatas ou empresários para adquirir tecnologias de uso militar e enviá-las à Rússia.
Autoridades de inteligência identificaram que o homem que supervisiona essas atividades em Tóquio utiliza a fachada de funcionário da companhia aérea estatal russa Aeroflot. Maksim Vladimirovich Filchenkov, de 49 anos, é apontado como o responsável por coordenar a operação a partir de um escritório em Tóquio.
Para o envio dos materiais, agentes utilizam redes de logística e empresas que atuam como pontes entre os países. O uso de documentos de embarque falsificados e a triangulação de mercadorias por meio de terceiros países são métodos identificados para contornar as proibições de exportação.
A vulnerabilidade do Japão
Apesar do apoio vocal à Ucrânia, o governo japonês enfrenta desafios para conter a atividade de espionagem. O país possui limitações históricas em seus serviços de inteligência estrangeira, e o governo japonês ainda não possui uma agência dedicada exclusivamente à inteligência fora de suas fronteiras.
Parlamentares japoneses afirmam haver um senso de crise diante da situação. O Ministério das Relações Exteriores do Japão declarou que tem trabalhado com aliados ocidentais para vetar a exportação de itens ligados ao setor militar para o território russo, classificando a agressão à Ucrânia como um ato que abala a ordem internacional.
O Japão é o maior exportador mundial de tecnologias de "uso dual" — equipamentos que podem ter aplicações tanto civis quanto militares — buscadas pelo Kremlin. O fluxo de tecnologia sensível para a Rússia muitas vezes ocorre por meio de destinos intermediários que revendem os produtos para o território russo.
