Diretor da PF culpa EUA por investigação prejudicada, mas crítico aponta falhas da própria corporação
Andrei Rodrigues afirma que designação do PCC como terrorista pelos Estados Unidos antecipou operação e comprometeu localização de alvo; especialista questiona responsabilidade das autoridades brasileiras.
Por Diário Local
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, atribuiu a falha em localizar o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada na operação realizada hoje à designação do PCC como grupo terrorista pelos Estados Unidos e às sanções decorrentes dessa medida.
Em entrevista coletiva, Rodrigues afirmou que a ação americana causou "prejuízo à investigação" e forçou a antecipação da operação. "Alterou a nossa ação. Houve uma antecipação. Mas, de fato, se não houvesse essa designação, talvez o desfecho fosse outro e nós teríamos localizado essa pessoa, mas infelizmente não localizamos", disse o diretor-geral.
Shimada é apontado como um dos líderes de esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico internacional de drogas. Segundo investigações, a operação financeira movimentou mais de R$ 10 bilhões.
A investigação que levou à operação de hoje teve origem em 2023, quando a Homeland Security Investigations americana (HSI) iniciou apuração nos Estados Unidos. Durante uma fiscalização no aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida, agentes americanos detiveram um brasileiro, Ygor Fokin Saviolli, e localizaram em seu celular fotos e mensagens que levantaram suspeitas sobre o envolvimento dele no esquema.
As informações obtidas nos EUA foram transmitidas às autoridades brasileiras, que passaram a acompanhar o caso. Saviolli era apontado como chefe da operação de lavagem de dinheiro ao lado de Shimada.
Segundo a cronologia dos fatos, Shimada foi preso em 2024 e condenado em 2025. Contudo, ele foi libertado em seguida por ordem judicial, permanecendo foragido até hoje.
A explicação do diretor-geral da PF sobre as sanções americanas coloca os EUA como responsáveis pela antecipação da operação e pela não localização do alvo principal. Segundo Rodrigues, a designação do PCC como organização terrorista pelos americanos teria comprometido o timing da ação policial brasileira.
Analistas, contudo, apontam que a responsabilidade pela operação fracassada recai sobre a gestão brasileira do caso, e não sobre as sanções externas. Afirmam que autoridades brasileiras possuíam informações sobre o esquema desde 2023 — quando os americanos identificaram Saviolli — e conheciam a condenação e subsequente libertação de Shimada em 2025.
De acordo com essa avaliação crítica, as autoridades brasileiras tiveram tempo e conhecimento suficientes para manter vigilância sobre Shimada após sua libertação, evitando que ele continuasse operando para organizações criminosas.
A questão também expõe lacunas nas decisões do Poder Judiciário brasileiro. Críticos argumentam que a soltura de condenado envolvido com organizações criminosas de grande escala — e sem monitoramento efetivo após a libertação — reflete fragilidades no sistema de contenção de criminosos de alta periculosidade.
O fracasso em localizar Shimada, assim, não pode ser atribuído unicamente às sanções americanas, segundo essa ótica. A falha resulta também de decisões e omissões de órgãos brasileiros que tiveram acesso à informação e responsabilidade pela ação em território nacional.
Shimada continua procurado. A operação de hoje mobilizou recursos da Polícia Federal para tentar capturá-lo, mas não alcançou seu objetivo principal.
