Armazenamento de células-tronco do cordão umbilical custa até 10 salários mínimos
Procedimento de 'poupança biológica' exige investimento inicial e taxa anual, mas especialistas apontam queda no uso para transplantes
Por Redação Diário Local
O armazenamento das células-tronco presentes no sangue do cordão umbilical e da placenta é visto por muitas famílias como uma estratégia de reserva biológica para o futuro. O procedimento tem como potencial uso o tratamento de doenças hematológicas, como leucemia, linfomas, mieloma múltiplo e anemia aplástica.
A coleta ocorre logo após o parto, quando o sangue remanescente no cordão e na placenta é retirado por punção e colocado em uma bolsa estéril com anticoagulante. O material é enviado a um laboratório especializado para passar por testes de qualidade, volume e exames para descartar doenças infecciosas.
Para garantir a conservação a longo prazo, as amostras recebem uma substância chamada crioprotetor e são congeladas em tanques de nitrogênio líquido a cerca de -196°C. Segundo a biomédica Lauziene Soares, especialista em Biologia Molecular e Genética Laboratorial, essa temperatura permite que as células sejam preservadas por décadas.
O hematologista Douglas Stocco complementa que estudos recentes demonstram que essas células permanecem conservadas por, no mínimo, 27 anos, mantendo 100% de sua viabilidade. O custo para realizar o procedimento em bancos privados varia entre sete e 10 salários mínimos.
Além do investimento inicial, as famílias precisam arcar com uma taxa de manutenção anual para manter o material congelado, que gira entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. O processo exige o cumprimento de normas rigorosas, pois a legislação exige quantidades e volumes mínimos de células para que o armazenamento seja viável.
Quanto custa o armazenamento de células-tronco?
O investimento para a coleta varia entre sete e 10 salários mínimos, dependendo do serviço e da logística utilizada. Somado a isso, existe uma taxa de manutenção anual para garantir o funcionamento dos tanques de criopreservação.
A decisão de armazenar o material deve ser individualizada. Embora haja a esperança de uso futuro, especialistas apontam que o avanço de outras tecnologias médicas tem mudado a dinâmica dos transplantes desde o nascimento.
Por que o uso desse material para transplantes diminuiu?
Apesar do crescimento do interesse pelo armazenamento, o uso do sangue de cordão para transplantes de medula óssea vem caindo nos últimos anos. De acordo com o hematologista Rafael Rocha de Lima, do Grupo Pulsa Espírito Santo, isso ocorre devido ao avanço das terapias de imunossupressão.
Uma dessas tecnologias é o transplante haploidêntico, realizado com metade da compatibilidade genética. Essa modalidade permite que pais, mães ou irmãos sejam utilizados como doadores com maior facilidade, o que diminui a necessidade de recorrer ao sangue do cordão umbilical.
Outro motivo para a baixa utilização é o risco genético. As células coletadas podem carregar o mesmo material genético e os mesmos defeitos responsáveis por uma doença que venha a se manifestar na criança. Por isso, entre 2003 e 2018, das mais de 140 mil unidades armazenadas em bancos privados no Brasil, apenas seis foram usadas em transplantes autólogos.
Quais são as perspectivas para tratamentos futuros?
Atualmente, o foco de quem decide armazenar o material é a expectativa por tratamentos inovadores. O hematologista Douglas Stocco explica que o cordão umbilical é rico em células capazes de regenerar tecidos, o que tem gerado estudos para doenças como esclerose múltipla, quadros reumatológicos e autoimunes.
No entanto, esse uso regenerativo ainda não é uma realidade clínica consolidada. O uso para doenças degenerativas permanece em fase de pesquisa científica, e a aplicação dessas terapias ainda depende de novos avanços na medicina.
A decisão de realizar a coleta envolve considerar tanto a possibilidade de tratamentos futuros quanto os custos de manutenção e a disponibilidade de tecnologia. Especialistas recomendam que as famílias avaliem cada caso de forma particular antes de optar pelo serviço.
