Estudo associa presença de certas bactérias intestinais a traços de psicopatia em adultos
Pesquisa analisa relação entre microrganismos na boca e no intestino e características como impulsividade e falta de empatia.
Por Redação Diário Local
Um estudo publicado na revista Translational Psychiatry identificou uma associação entre a presença de microrganismos no corpo e traços de psicopatia em adultos. A pesquisa analisou bactérias presentes no intestino e na boca, relacionando-as a características como impulsividade, comportamento antissocial e baixa empatia.
A investigação foi realizada com um grupo de 200 adultos saudáveis. Para compor o levantamento, os participantes forneceram amostras de sangue, saliva e fezes, além de responderem a um questionário especializado na medição de traços de personalidade.
Os cientistas buscaram padrões na composição da microbiota que pudessem coincidir com as respostas dos questionários. No entanto, os pesquisadores observaram que a diversidade geral de bactérias não apresentou uma relação clara com a psicopatia de forma isolada.
A associação entre os microrganismos e o comportamento surgiu ao comparar grupos específicos entre si. Nessa análise detalhada, três tipos de bactérias mostraram-se mais frequentes em pessoas com pontuações mais altas nos traços de personalidade avaliados.
Quais bactérias foram identificadas?
Os resultados indicaram uma associação positiva com bactérias dos gêneros Allisonella e Prevotella, além da espécie Cloacibacillus evryensis. Estes microrganismos foram encontrados com maior recorrência nos indivíduos com traços psicopáticos mais acentuados.
De acordo com os pesquisadores, essas bactérias já foram relacionadas anteriormente a processos inflamatórios e a alterações em funções do cérebro. Uma das hipóteses levantadas pela equipe é de que esses microrganismos possam influenciar substâncias ligadas ao sistema nervoso.
A espécie C. evryensis, por exemplo, pode estar envolvida na produção de GABA (ácido gama-aminobutírico). O GABA é um neurotransmissor fundamental para o funcionamento do organismo, pois participa do controle de impulsos no cérebro.
Por outro lado, o estudo encontrou um padrão inverso em relação à microbiota bucal. A bactéria Treponema vincentii, presente na boca, apareceu em maior quantidade justamente entre as pessoas com pontuações mais baixas nos traços de psicopatia.
Sobre esse achado específico, os autores do trabalho afirmam que ainda não existe uma explicação científica definida. O comportamento da Treponema vincentii permanece como um ponto de dúvida dentro da pesquisa atual.
O estudo prova causa e efeito?
Os pesquisadores reforçam que o estudo demonstra apenas uma relação de associação, e não uma relação de causalidade. Os dados não permitem afirmar que a presença dessas bactérias seja a causa do tipo de comportamento observado nos adultos.
Ainda não é possível determinar o sentido da relação. Não se sabe se as bactérias influenciam o comportamento humano ou se os hábitos e o estilo de vida, moldados pela personalidade, acabam afetando a composição da microbiota.
Os autores destacam que este é o primeiro estudo a explorar essa associação específica. Contudo, ressaltam que fatores como o funcionamento do cérebro continuam sendo pilares essenciais para entender a psicopatia.
Por fim, os resultados ainda não passaram pelo processo de revisão por pares. Isso significa que as conclusões precisam ser validadas e confirmadas por meio de pesquisas futuras em maior escala para garantir sua precisão científica.
