Falta de protocolos dificulta diagnóstico de depressão pós-parto e aumenta riscos à saúde
Invisibilidade de sintomas e falta de rastreio estruturado dificultam o cuidado com a saúde mental materna, segundo especialistas.
Por Redação Diário Local
O diagnóstico da depressão pós-parto enfrenta obstáculos devido à invisibilidade dos sintomas e à falta de protocolos estruturados para rastrear transtornos emocionais em mães. De acordo com especialistas, a ausência de monitoramento em sistemas de saúde impede a prevenção de problemas mentais que podem se tornar mais graves e incapacitantes.
Joel Rennó Jr., que integra a Comissão de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), alerta que transtornos não identificados podem evoluir para quadros recorrentes e aumentar os riscos de mortalidade materna. Ele destaca que a relação entre mãe e bebê também pode ser prejudicada, afetando o desenvolvimento social e cognitivo da criança.
A médica de família e comunidade Taynah Repsold ressalta que o diagnóstico exige uma investigação cuidadosa para não confundir o sofrimento com as mudanças hormonais naturais do período. Ela indica que a Escala de Edimburgo, um teste de 10 perguntas, é uma ferramenta disponível para profissionais de saúde treinados, como médicos, enfermeiros e psicólogos.
Quais sinais indicam alerta para depressão?
Segundo a médica Taynah Repsold, frases expressas pelas pacientes, como a sensação de não ser a mãe que imaginava ou a dificuldade em sentir o que deveria, são sinais de alerta. A naturalização do sofrimento, atribuído apenas ao cansaço, é apontada como um dos maiores impedimentos para o diagnóstico correto.
Um exemplo de dificuldade enfrentada é o de Thalita Oliveira, de 36 anos, que sentia desespero e ansiedade intensa após o nascimento do filho, buscando ajuda terapêutica apenas 45 dias depois do parto. Ela relata que o julgamento de outras pessoas e a percepção de que médicos não identificaram o seu estado dificultaram o processo inicial.
O que pode confundir o diagnóstico?
Nem todos os sintomas de irritabilidade, cansaço ou falta de energia são necessariamente de ordem psíquica. Condições físicas podem mimetizar quadros de ansiedade e depressão. A tireoidite pós-parto, por exemplo, pode causar tanto excesso de hormônio (gerando insônia e perda de peso) quanto falta de hormônio (causando cansaço e humor deprimido).
Além da tireoide, deficiências nutricionais de ferro, vitamina B12 e vitamina D também podem provocar fadiga e desânimo, sintomas que se sobrepõem aos transtornos mentais. Médicos recomendam que causas orgânicas sejam descartadas antes de fechar um diagnóstico de depressão.
A privação de sono também é um fator de risco independente. De acordo com a médica, a falta de descanso pode criar um ciclo vicioso: a ansiedade piora o sono, e a privação de sono agrava os sintomas de ansiedade e depressão, confundindo a avaliação clínica.
Posicionamento das autoridades
Questionado sobre o uso de protocolos de rastreio, o Ministério da Saúde informou que as equipes de atenção primária estão preparadas para identificar sinais de sofrimento psíquico e realizar o encaminhamento para serviços especializados quando necessário.
Já a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) comunicou que não existe uma diretriz geral para a aplicação da Escala de Edimburgo na rede pública, sendo o atendimento às puérperas com sintomas de depressão realizado via Atenção Primária à Saúde.
