Estudo mostra que órgãos de uma mesma pessoa podem envelhecer em ritmos diferentes
Pesquisa revela que tecidos de uma mesma pessoa podem apresentar idades biológicas distintas da idade cronológica.
Por Redação Diário Local
Diferentes órgãos e tecidos de uma mesma pessoa podem envelhecer em ritmos distintos, de acordo com um estudo publicado na última sexta-feira (14) na revista científica Nature Medicine. A pesquisa aponta que a idade cronológica, registrada na certidão de nascimento, nem sempre reflete o estado de envelhecimento biológico de todas as partes do corpo.
Para chegar a essa conclusão, pesquisadores desenvolveram os chamados “relógios dos tecidos”, modelos capazes de estimar a idade biológica por meio de alterações microscópicas. A metodologia utilizou inteligência artificial para avaliar 25.712 imagens de 40 tipos de tecidos de 983 pessoas, comparando as estimativas com a idade real de cada indivíduo.
Os cientistas identificaram uma "lacuna de idade", que é a diferença entre a idade prevista pelo tecido e a idade cronológica. Quando a lacuna é positiva, o tecido apresenta características de um organismo mais velho do que a idade real da pessoa. O estudo identificou tanto indivíduos com envelhecimento acelerado em múltiplos tecidos quanto aqueles em que apenas órgãos isolados apresentavam idade biológica superior.
Como o envelhecimento afeta os órgãos?
O estudo não estabeleceu uma idade padrão para cada órgão, mas demonstrou como alguns tecidos podem estar biologicamente mais velhos ou mais jovens em relação à idade do indivíduo. Entre as principais alterações associadas ao processo de envelhecimento foram detectadas a atrofia de tecidos, fibrose, redução de pequenos vasos sanguíneos e menor proliferação de células epiteliais.
Em casos específicos, o envelhecimento acelerado apareceu associado a certas condições de saúde. No cérebro, o processo foi mais pronunciado em pessoas que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) e em pacientes com Alzheimer. No trato gastrointestinal, a doença de Crohn esteve associada ao envelhecimento acelerado de tecidos do esôfago, estômago, intestino delgado e cólon.
Além disso, a pesquisa observou que a diabetes tipo 2 foi associada ao envelhecimento do tecido pancreático, enquanto doenças respiratórias crônicas demonstraram relação com o envelhecimento pulmonar. Na aorta, tecidos mais velhos apresentaram espessamento da parede e perda de integridade. Nos músculos, o avanço da idade foi acompanhado por atrofia e maior infiltração de gordura.
Quais são os próximos passos da pesquisa?
Os pesquisadores destacam que as associações encontradas entre doenças e envelhecimento de órgãos são exploratórias e não permitem afirmar que uma condição causa diretamente o envelhecimento do órgão. O objetivo é entender a relação entre idade, funcionamento orgânico e o desenvolvimento de enfermidades.
Os cientistas também testaram uma estratégia para estimar o envelhecimento dos tecidos através de informações de expressão gênica encontradas no sangue. A proposta busca viabilizar, futuramente, métodos menos invasivos para acompanhar o envelhecimento de diferentes partes do corpo.
Por enquanto, os “relógios dos tecidos” funcionam apenas como ferramenta de pesquisa e não como exame clínico disponível para a população. A técnica ainda depende de amostras de tecidos e precisa ser validada em grupos populacionais maiores e mais diversos.
