Estudo mostra que excesso de exercícios altera química do cérebro e mantém dopamina alta no repouso
Pesquisa com camundongos revela que treinos exaustivos sem descanso alteram a química do hipocampo, região ligada à memória.
Por Redação Diário Local
O excesso de exercícios físicos pode alterar a química do cérebro, afetando a regulação de neurotransmissores em áreas ligadas à memória e às emoções. Um estudo publicado na revista Neuroscience revelou que treinamentos exaustivos, realizados sem o descanso adequado, modificam os níveis de dopamina no hipocampo.
A pesquisa, realizada por pesquisadores brasileiros, utilizou experimentos com camundongos para observar como o sobretreino impacta o sistema nervoso central. Os dados indicam que a atividade física intensa tem efeitos que vão muito além do desenvolvimento da massa muscular.
Durante os testes, os animais submetidos a rotinas severas de exercícios apresentaram níveis de dopamina — substância essencial para o estado de alerta e motivação — elevados justamente no período em que deveriam estar em repouso. O achado crítico ocorreu 48 horas após o teste de desempenho no grupo de treinamento crônico.
Como foi feita a simulação de overtraining?
Para entender a dinâmica, cientistas da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP-USP) dividiram os roedores em dois grupos. O primeiro grupo passou por um teste de esforço agudo, correndo em uma esteira até a exaustão.
O segundo grupo simulou a rotina de atletas de alto rendimento com a síndrome de overtraining, que inclui sintomas como fadiga crônica, dor muscular e perda de apetite. Esses animais treinaram por oito semanas com cargas progressivas, chegando a realizar duas sessões diárias com apenas quatro horas de intervalo para recuperação.
Após o período de treino, os pesquisadores mediram a dopamina, a serotonina e proteínas como a tirosina hidroxilase (TyrH), responsável pela síntese do neurotransmissor. No grupo de treinamento crônico, os níveis de dopamina e da enzima TyrH permaneceram altos durante a fase de descanso.
Quais as implicações para a saúde humana?
Embora o estudo tenha sido conduzido com camundongos e não tenha medido diretamente estados de ansiedade ou sono, os coordenadores da pesquisa destacam o potencial das descobertas. Se o mecanismo for confirmado em seres humanos, ele pode explicar a relação entre o treinamento excessivo e distúrbios do sono e da regulação cerebral.
De acordo com o primeiro autor do estudo, Alisson Luiz da Rocha, o problema não é a dopamina em si, que é fundamental para o prazer e o despertar, mas o desequilíbrio causado por seu aumento no momento do repouso. A pesquisa também não encontrou mudanças significativas na serotonina, contrariando hipóteses anteriores sobre a causa da fadiga excessiva.
Os especialistas reforçam que respeitar o tempo de recuperação é essencial para evitar a perda de performance e falhas no sistema imune. O descanso é considerado um fator biológico inegociável para a manutenção da saúde mental e do rendimento físico, tanto para profissionais quanto para amadores.
