Luto por morte no trânsito é mais traumático devido à natureza súbita e evitável, explica especialista
Psicóloga explica as fases do luto decorrentes de acidentes e destaca a importância da psicoterapia para lidar com a perda súbita
Por Redação Diário Local
O luto decorrente de acidentes de trânsito possui características distintas de outros tipos de perda, como a morte por doenças crônicas, devido ao caráter súbito, violento e, muitas vezes, evitável do evento. A explicação é da psicóloga Adalgisa Lopes, presidente da Associação das Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (ACTrans-MG).
Diferente de uma morte esperada, na qual há um processo visível de preparação e despedida, o acidente interrompe a vida de forma abrupta. Segundo a especialista, a ausência de tempo para se preparar torna o enfrentamento emocional muito mais complexo para os familiares.
De acordo com a psicóloga, o processo de luto costuma percorrer cinco fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Contudo, em ocorrências de trânsito, o trauma pode travar esse ciclo inicial através de um estado de choque.
Nesse primeiro estágio, a pessoa pode apresentar um embotamento funcional, sentindo que o ocorrido é irreal ou um engano. Isso pode fazer com que o enlutado passe por burocracias, velórios e funerais sem conseguir expressar o choro ou o desespero imediato.
O segundo momento é o confronto com a realidade, considerado a fase mais dolorosa. É quando o indivíduo revive o acidente e busca detalhes sobre o que aconteceu, o que pode gerar sentimentos intensos de raiva contra outros motoristas, contra a própria fé ou contra si mesmo.
A culpa também é um componente frequente, com o enlutado questionando o que poderia ter feito para evitar a tragédia. Esse processo emocional pode desencadear sintomas físicos, como insônia, dores no peito, falta de ar e crises de choro.
A especialista alerta ainda para comportamentos de fuga que podem surgir, como o aumento no consumo de álcool, tabaco ou comida. Além disso, é comum o surgimento de medos relacionados à locomoção, como o receio de dirigir ou andar de motocicleta.
A Adalgisa Lopes aponta também um cenário preocupante quanto ao aumento de mortes entre motociclistas, perfil que inclui majoritariamente entregadores e trabalhadores de baixa renda. Ela ressalta que o uso da moto, nesses casos, é uma necessidade de trabalho e não uma escolha de risco por lazer.
A perda desses indivíduos gera um impacto econômico severo, já que as vítimas costumam estar na faixa etária de 18 a 39 anos, em plena idade produtiva. No Brasil, os gastos com o atendimento de pessoas acidentadas no trânsito somaram R$ 130 bilhões nos últimos 10 anos.
Além do impacto financeiro e das sequelas que sobrecarregam o INSS, as famílias enfrentam uma carga burocrática imediata. O processo envolve o reconhecimento de corpos no Instituto Médico Legal (IML), questões de seguros e a necessidade de reorganizar o sustento da casa.
Como buscar a superação da dor?
Para a profissional, a superação não significa o fim do luto, mas a transformação da dor em saudade. Ela recomenda que as pessoas ao redor deem espaço para o enlutado falar, pois o ato de narrar memórias ajuda a trazer a pessoa falecida de volta ao convívio por meio de lembranças.
A psicoterapia é indicada como ferramenta essencial para ajudar o indivíduo a reorganizar a rotina e os novos papéis familiares. O tratamento auxilia na saída do estado de dor constante para que a pessoa consiga aprender a viver com a ausência.
A especialista sugere que a criação de pequenos rituais e o uso de fotos podem ajudar no processo de ressignificação. O objetivo é permitir que o enlutado supere a fase de busca por respostas lógicas para o ocorrido e consiga reconstruir seus vínculos.
Por fim, a orientação é que as famílias tenham paciência com o processo, que não é linear e pode apresentar recaídas. O suporte profissional é fundamental para evitar que o sofrimento se torne travado e prolongado excessivamente.
