Ciência avança com novos medicamentos para controlar doenças crônicas
Estudos buscam tratamentos personalizados e medicamentos de longa duração para hipertensão, obesidade e colesterol no Espírito Santo.
Por Redação Diário Local
Novas tecnologias e medicamentos personalizados estão transformando o tratamento de doenças crônicas, permitindo intervenções com intervalos cada vez maiores entre as doses. O avanço da medicina de precisão busca oferecer terapias que podem ser aplicadas semestralmente ou anualmente, reduzindo a dependência de múltiplos comprimidos diários.
No Espírito Santo, esse cenário é relevante para cerca de 1,6 milhão de pessoas que convivem com condições crônicas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, no Brasil, 52% dos adultos possuem diagnóstico de ao menos uma dessas doenças, segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).
Para o controle da hipertensão arterial (pressão alta), cientistas estudam o uso do zilebesiran. Um estudo realizado em 2025 (KARDIA-2) mostrou que uma única injeção de 600 mg, aplicada sob a pele, auxiliou no controle da pressão em pacientes que não obtinham resultados satisfatórios apenas com o tratamento oral.
Embora o zilebesiran ainda esteja em fase de pesquisa, um estudo maior avalia se o tratamento também pode reduzir complicações cardiovasculares. A aplicação é feita de forma complementar aos medicamentos habituais que os pacientes já utilizam para o controle da condição.
Como funcionam as novas terapias?
A medicina de precisão utiliza exames genéticos e biomarcadores para identificar as terapias com maior chance de eficácia para cada indivíduo. O objetivo é tornar o tratamento mais direcionado, atacando as causas moleculares da doença em vez de apenas controlar os sintomas.
Pesquisadores do Núcleo de Genética Humana e Molecular (NGHM) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) apontam que tecnologias de RNA e anticorpos monoclonais de longa duração estão ampliando essas possibilidades. O uso dessas plataformas pode permitir intervenções únicas com efeitos prolongados.
No combate ao colesterol ruim (LDL), o Brasil já utiliza a inclisirana, medicamento baseado em tecnologia de RNA interferente. Ele atua reduzindo a proteína PCSK9, o que permite que o fígado remova mais colesterol da circulação, com aplicações realizadas duas vezes ao ano na fase de manutenção.
Para a obesidade, a medicação retratutida é uma das novidades mais aguardadas nos estudos clínicos. O fármaco atua como um agonista triplo (GLP-1, GIP e glucagon) e, segundo especialistas, quase metade dos pacientes em testes perdeu mais de 30% do peso corporal.
No tratamento do diabetes tipo 2, destacam-se os inibidores de SGLT2, como a dapagliflozina e a empagliflozina. Essas substâncias aumentam a eliminação de glicose pela urina e podem retardar a piora da função renal, além de reduzir riscos cardiovasculares.
Por que as doenças crônicas persistem?
A persistência dessas condições pode estar ligada a mecanismos do sistema imunológico. De acordo com professores da Ufes, a chamada "imunidade treinada" faz com que as células de defesa reajam com mais força após um estímulo, o que pode manter a inflamação ativa no organismo.
Além disso, os órgãos podem guardar uma espécie de "memória" da doença. Células de defesa permanecem por longos períodos em locais como pele, intestino e pulmões, prontas para reagir rapidamente, o que ajuda a explicar a ocorrência de recaídas.
Outra frente de estudo investiga a imunossenescência, o processo de envelhecimento que altera a capacidade de reação das células de defesa. O desequilíbrio pode tornar o corpo mais vulnerável a infecções e contribuir para o desenvolvimento de doenças como o câncer.
Para quadros de depressão resistente, a medicina conta com a escetamina em spray nasal, com registro na Anvisa desde 2020. A aplicação deve ser obrigatoriamente supervisionada em ambiente clínico e em associação com antidepressivos orais.
Especialistas alertam, no entanto, que as novas tecnologias não substituem a necessidade de mudanças no estilo de vida. O controle de doenças crônicas depende de uma combinação de fatores genéticos, metabólicos e de hábitos como alimentação e exercícios.
