Diário Local
Saúde Pública

Unaids alerta para risco de ressurgimento da epidemia global de HIV por queda de financiamento

Relatório aponta queda de 18% nos recursos para o combate ao vírus e coloca em risco a meta de encerrar a aids até 2030

Por Redação Diário Local

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Unaids) alertou para o risco de um ressurgimento da epidemia global de HIV devido à queda no financiamento internacional e à redução de serviços preventivos. O aviso consta do relatório especial “Unidas e Unidos para acabar com a aids”, divulgado nesta segunda-feira (27), durante a 26ª Conferência Internacional de aids, ocorrida no Rio de Janeiro.

O documento aponta que o corte de recursos, somado à diminuição de serviços comunitários e às barreiras de acesso à prevenção, pode comprometer décadas de avanços no controle da doença. Segundo o órgão, a meta de encerrar a aids como ameaça à saúde pública até 2030 está em risco caso os investimentos não sejam retomados.

Em 2025, o mundo registrou 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570 mil mortes relacionadas à aids. Apesar de serem os menores índices dos últimos 30 anos, o Unaids afirma que a resposta global está fragilizada pelo colapso da assistência oficial ao desenvolvimento, que sofreu uma queda de 23% em 2025.

Os recursos internacionais destinados especificamente ao combate ao vírus recuaram de US$ 8,8 bilhões, em 2024, para US$ 7,3 bilhões, em 2025. Essa redução de 18% representa o menor nível de investimento em quase duas décadas, conforme detalha o relatório.

A crise financeira é mais severa em nações africanas de baixa renda. Na África Subsaariana, 80% dos recursos para prevenção dependem de financiamento externo, o que coloca serviços essenciais liderados pela comunidade em risco de colapso caso não haja novos aportes.

A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, declarou que a dependência de ajuda internacional precisa ser superada e que os governos devem ampliar investimentos internos. Segundo a diretora, é urgente corrigir o sistema financeiro e acelerar a reestruturação da dívida para que os países possam investir em saúde e educação.

O relatório também aponta um cenário de retrocesso em diversas regiões. Em 21 países houve crescimento no número de casos e as novas infecções aumentaram em três regiões do mundo. Além disso, cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não recebem tratamento.

A criminalização de populações vulneráveis também foi destacada como um obstáculo. Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo, enquanto o Senegal ampliou as penalidades para essas relações em 2026. Atualmente, 66 países criminalizam tais relações e 14 criminalizam pessoas trans.

Como está a situação no Brasil?

O Brasil é citado no relatório como um dos países que conseguiu ampliar o acesso à prevenção medicamentosa. No último ano, houve um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez.

Contudo, existe um impasse sobre o acesso a novas tecnologias. O país não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária para o lenacapavir, um medicamento injetável de aplicação semestral. Como o Brasil participou dos ensaios clínicos do produto, o governo avalia recorrer ao licenciamento compulsório para viabilizar preços menores ou versões genéricas.

O Unaids estima que 20 milhões de pessoas precisam de acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para reduzir as infecções de forma significativa. Embora parcerias busquem atender 3 milhões de pessoas com o lenacapavir até 2028, o número é considerado pequeno diante da necessidade global.

Quais são as metas para 2030?

Para reverter o quadro, os Estados-Membros adotaram, em junho de 2026, uma nova Declaração Política alinhada à Estratégia Global para a aids 2026-2031. O cumprimento das metas globais pode evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes até o fim da década.

Entre os objetivos estabelecidos estão colocar 40 milhões de pessoas em tratamento e garantir que 20 milhões tenham acesso à prevenção por antirretrovirais. O plano também visa reduzir a discriminação e a desigualdade de gênero entre pessoas que vivem com o vírus.

Por fim, o programa busca reduzir para menos de 10% o número de países que mantêm legislações ou políticas punitivas que limitem o acesso aos serviços de saúde. A organização reforça que a inovação tecnológica só será efetiva se acompanhada de acesso amplo e preços acessíveis.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.