Relatório aponta que Voepass simulava consertos para burlar prazos de segurança em aviões
Relatório do Cenipa revela que empresa registrava reparos inexistentes para evitar que aviões ficassem parados para manutenção
Por Redação Diário Local
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) revelou que a Voepass simulava o conserto de aeronaves com falhas técnicas para burlar prazos de segurança. A prática permitia que aviões operassem com condições degradadas, ultrapassando os limites temporais previstos nos regulamentos vigentes.
Segundo o órgão da Força Aérea, a conduta mascarava o caráter crônico das falhas técnicas. O esquema consistia em registrar na Lista de Equipamentos Mínimos (MEL) — documento que define falhas aceitáveis e prazos para reparo — que um problema havia sido resolvido, mesmo sem a execução do conserto. Com isso, o prazo de segurança para o reparo era reiniciado do zero.
Em nota, a Voepass afirmou que a tripulação do voo 2283 era treinada e experiente, que a companhia segue padrões internacionais de segurança e que continua colaborando com as investigações do Cenipa. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ressaltou que a investigação tem caráter preventivo e as recomendações serão analisadas em até quatro meses.
Como funcionava a prática de burlar a manutenção
De acordo com o Cenipa, o processo de fraude ocorria quando o prazo para o conserto de um equipamento terminava. A empresa registrava que o sistema estava em pleno funcionamento para evitar a indisponibilidade da aeronave. Quando a falha reaparecia em voos subsequentes, ela era lançada como um novo problema, evitando o histórico de panes recorrentes.
O relatório também apontou que houve pressão sobre os pilotos para que não registrassem ocorrências. Segundo a investigação, esse processo informal visava evitar que as discrepâncias resultassem na retirada da aeronave de operação por tempo prolongado para correções necessárias.
No caso específico da aeronave que caiu em Vinhedo (SP), o relatório destacou a falta de anotações no diário de bordo. O sistema de degelo das asas falhou em viagens anteriores e no dia do acidente, mas as ocorrências não foram devidamente registradas, o que impediu a contagem do prazo para reparo e a adoção de medidas como a troca do avião.
Falhas de fiscalização e histórico da empresa
A investigação concluiu que a Anac já tinha conhecimento de problemas no sistema de degelo da Voepass antes do acidente. Entre 2022 e 2024, a agência emitiu 10 notificações sobre essas falhas e realizou diversas auditorias e inspeções, chegando a suspender aviões da companhia por risco de voo.
O Cenipa avaliou que o gerenciamento de risco da Anac não foi suficiente para mitigar os riscos no ambiente operacional da empresa. Como resposta, o órgão orientou que a agência aperfeiçoe os mecanismos de identificação de empresas com problemas repetitivos e adote medidas mais eficazes para acompanhar as companhias.
Em março de 2025, a Anac suspendeu as operações da Voepass e, em junho do mesmo ano, cassou definitivamente o certificado que permitia à companhia realizar voos comerciais.
