Rússia classifica pelo menos 60 jornalistas como terroristas e extremistas em 2026
Dados da Repórteres sem Fronteiras apontam escalada de repressão contra a mídia independente após o início do conflito na Ucrânia
Por Davy Albuquerque
Pelo menos 60 jornalistas constam nas listas de “terroristas” e “extremistas” na Rússia em 2026, segundo dados da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF). A medida faz parte de um conjunto de ações que limitam a atuação da mídia independente no país desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022.
O controle sobre o setor de comunicação aumentou com o uso de classificações governamentais que rotulam veículos e profissionais como “agentes estrangeiros” ou “organizações indesejáveis”. Com isso, canais de televisão privados e veículos internacionais perderam acesso ao público russo.
Grandes emissoras estrangeiras, como BBC, France 24 e Euronews, deixaram de ser acessíveis à população. Meios independentes, como o Meduza e a TV Rain (Dozhd), precisaram transferir suas operações para o exterior para continuar funcionando.
De acordo com o Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ), o bloqueio de sites relacionados à cobertura da guerra já soma mais de 25 mil endereços eletrônicos desde o início das ofensivas em 2022. As listas de restrição são administradas pela Rosfinmonitoring, agência de monitoramento financeiro do governo russo.
Atualmente, os veículos que permanecem em operação regular no país são, em sua maioria, estatais ou controlados por empresários com proximidade ao Kremlin. A repressão tem isolado as vozes que não seguem a linha oficial do governo de Vladimir Putin.
Como funciona o sistema de repressão?
O governo russo utiliza um conjunto de instrumentos legais que se complementam para restringir a atividade jornalística. A classificação de “agente estrangeiro”, criada em 2012, exige que as publicações exibam obrigatoriamente rótulos específicos em seu conteúdo.
Esse status de agente estrangeiro busca estigmatizar vozes críticas e dificultar reportagens. Cerca de 500 jornalistas e veículos de comunicação já estão sob essa classificação administrativa no território russo.
Já o estatuto de “organização indesejável” proíbe qualquer atividade de uma entidade no país. Quem colaborar ou financiar essas organizações pode responder a processos criminais. Em agosto de 2025, o Ministério da Justiça da Rússia incluiu a Repórteres sem Fronteiras nessa lista.
Os níveis mais severos são as designações de “extremista” e “terrorista”. O rótulo de extremismo pode resultar em penas de prisão e no congelamento de bens, além de proibir qualquer atividade ligada à entidade designada.
No caso da classificação de “terrorista”, as consequências financeiras são imediatas, com o congelamento automático de contas e bens. Essa designação prevê penas de até 12 anos de prisão, dependendo da acusação apresentada.
Quem são os jornalistas afetados?
Entre os casos relatados pela RSF está o de Tikhon Dzyadko, editor-chefe da emissora independente TV Rain (Dozhd). Ele foi designado “terrorista” em outubro de 2025, após já ter sido classificado como “agente estrangeiro”.
Dzyadko, que vive no exílio, foi acusado de divulgar informações falsas sobre o Exército russo. Ele já constava na lista de procurados do governo antes de receber a nova classificação criminal.
Também foram incluídos nas listas de restrição o jornalista Kirill Martynov, editor-chefe da Novaya Gazeta Europe, e Ksenia Luchenko, profissional especializada na cobertura da Igreja Ortodoxa Russa.
O cenário de restrições reflete diretamente nos rankings internacionais de liberdade de expressão. Na edição de 2026 do Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, a Rússia ocupa a 172ª posição entre 180 países pesquisados.
