Diário Local
Saúde Mental

Ex-zagueiro revela impacto do vício em apostas e relata perda de carreira e dívidas com a família

Ítalo Augusto Souza Araújo conta como a ludopatia causou dívidas, roubos na família e o abandono do futebol profissional

Por Davy Albuquerque

O ex-zagueiro profissional Ítalo Augusto Souza Araújo, de 25 anos, relatou como o vício em apostas causou a perda de sua carreira no futebol e gerou crises financeiras e familiares. O atleta, que passou por clubes como Cruzeiro, América, Goiás, Paraná, Vila Nova e Capital, afirmou ter perdido cerca de R$ 100 mil devido à ludopatia (transtorno do jogo).

O jogador, conhecido como “Animal” nos gramados, detalhou que a dependência começou por diversão durante a pandemia da Covid-19, quando ele tinha 21 anos. Com o avanço do vício, o acompanhamento de resultados de apostas passou a ser prioridade em relação aos treinos, levando-o a abandonar o esporte de alto rendimento.

Ítalo descreveu que a compulsão financeira o levou a buscar empréstimos e contrair dívidas com agiotas. Em um dos relatos mais graves, o ex-atleta afirmou que chegou a roubar dinheiro de familiares em casa para sustentar as apostas, inclusive utilizando técnicas aprendidas na internet para abrir um cofre.

O impacto na família foi profundo e causou adoecimento emocional em sua mãe. Em um episódio de desespero, após perder R$ 5 mil em um curto período, o ex-jogador relatou ter dirigido em alta velocidade por uma rodovia com a intenção de colidir o carro com um caminhão.

Como o vício afetou a vida pessoal?

A compulsão alterou o comportamento de Ítalo tanto dentro quanto fora de campo. O ex-atleta revelou que chegou a simular lesões em treinos para poder conferir resultados de jogos pelo celular no vestiário, além de ter perdido o controle de uma loja de calçados que mantinha.

A rotina de apostas gerou um ciclo de ocultação de problemas. Segundo o relato, ele chegou a pedir valores pequenos à mãe para pagar faturas de cartão de crédito, mas a descoberta das movimentações bancárias e dos furtos domésticos desestruturou o núcleo familiar.

Como começa a recuperação?

A trajetória de mudança de Ítalo teve um marco em maio do ano passado, quando ele passou a frequentar as reuniões dos Jogadores Anônimos (JA) em Belo Horizonte. O contato com pessoas que enfrentam problemas semelhantes foi descrito por ele como fundamental para a retomada da vida.

Atualmente, ele trabalha na área de comunicação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG) e afirma estar reconstruindo sua rotina longe das apostas. O ex-atleta ressalta que a recuperação é uma batalha contínua e busca viver uma nova realidade.

O vício em apostas é reconhecido como um transtorno de saúde mental e possui tratamento disponível. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o atendimento pode ser buscado em Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Em Belo Horizonte, os Jogadores Anônimos realizam encontros gratuitos às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h15, na sede da Abraço (Av. do Contorno, 4.777, bairro Funcionários). Em casos de sofrimento intenso ou ideação suicida, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional 24 horas por dia.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.