Fetiche cuckold é visto por especialistas como variação da sexualidade humana
Especialista explica que a prática envolve excitação ao ver o parceiro com outra pessoa e deve ser baseada em consenso e confiança.
Por Davy Albuquerque
O fetiche cuckold, caracterizado pela excitação ao imaginar ou ver o parceiro ter um envolvimento sexual com outra pessoa, é compreendido por especialistas como uma das variações da sexualidade humana. A prática faz parte das formas de expressão sexual e não deve ser confundida com infidelidade, falta de amor ou problemas no relacionamento.
De acordo com a docente de psicologia Lidyane Santos, não existe uma explicação única para o interesse por esse tipo de fantasia. O desejo pode estar relacionado à busca por novidade, intensidade emocional ou maior excitação sexual, envolvendo também elementos como o voyeurismo e a quebra de normas sociais.
A especialista explica que as fantasias são multifatoriais. Segundo a análise, elas são influenciadas por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e culturais, sem uma causa única que determine a prática.
Lidyane Santos destaca ainda que é um erro associar o fetiche à baixa autoestima ou ao desejo de humilhação. Embora algumas pessoas busquem dinâmicas de submissão, em muitos casos a experiência está, inclusive, relacionada à confiança depositada no parceiro.
O caso de Mariana Sales, de 46 anos, ilustra essa perspectiva de autodescoberta. Após o fim de um relacionamento de seis anos, marcado por monotonia e traições, ela passou por um processo de autoconhecimento que a levou a identificar interesse pela dinâmica.
Para Mariana, o que desperta o interesse é o conjunto da experiência, que muitas vezes ocorre apenas no campo fantasioso. Ela descreve a prática como algo ligado à autoconfiança, à cumplicidade e à liberdade existente entre o casal.
A experiência de Mariana envolve um relacionamento de cerca de três anos com um parceiro de 34 anos. Ela ressalta que a introdução do desejo no cotidiano ocorreu de forma gradual e sem pressões.
Antes de qualquer tentativa de colocar o desejo em prática, houve uma conversa para estabelecer regras bem definidas. O casal utilizou o diálogo para expressar expectativas, inseguranças e dúvidas sobre a nova dinâmica.
Mariana pontua que foram combinados limites muito claros para ambos. Ficou estabelecido que qualquer um dos envolvidos poderia mudar de ideia ou interromper a atividade a qualquer momento, garantindo o controle sobre a situação.
Como diferenciar a prática saudável da problemática?
A natureza da vivência depende diretamente da forma como ela é conduzida. Para a docente Lidyane Santos, a prática tende a ser considerada saudável quando ocorre entre adultos de forma consensual e com comunicação clara.
O respeito aos limites e a possibilidade de recusa são fundamentais. Além disso, a ausência de sofrimento significativo para os envolvidos é um dos critérios que definem uma experiência saudável.
Em contrapartida, a prática merece atenção quando se torna compulsiva ou acontece por meio de coerção. O comportamento também é visto de forma preocupante quando passa a substituir completamente outras formas de intimidade do casal.
Outro ponto de alerta é o uso do fetiche como uma tentativa de resolver conflitos importantes do relacionamento. A especialista sinaliza que, nesses casos, a dinâmica deixa de ser uma escolha erótica para se tornar um problema estrutural.
Em um contexto de confiança e consentimento, emoções como o ciúme, a competição ou a vulnerabilidade podem ser reinterpretadas pelo cérebro como parte de uma experiência erótica segura.
Essa interpretação diferencia a fantasia da infidelidade real. Enquanto no fetiche consensual há o cumprimento de acordos, na infidelidade ocorre a quebra de confiança e o sofrimento emocional dos envolvidos.
