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Saúde

Estudos apontam presença de racismo no cotidiano de cursos de Medicina no Brasil

Pesquisas indicam que estudantes negros enfrentam discriminação, desde piadas cotidianas até dificuldades para utilizar o jaleco em hospitais.

Por Redação Diário Local

Pesquisas acadêmicas indicam que o racismo permanece presente no cotidiano das faculdades de Medicina no Brasil, manifestando-se por meio de agressões explícitas, práticas institucionais e discriminação no ambiente hospitalar. O preconceito atinge estudantes negros desde a fase de formação acadêmica até o exercício de atividades práticas em hospitais e laboratórios.

Um estudo publicado em 2022 por Vanessa Cristine Ribeiro Fredrich e colaboradores analisou a experiência de estudantes negros em cursos de Curitiba. A pesquisa identificou que o preconceito ocorre desde comentários ofensivos sobre o cabelo crespo e a cor da pele até barreiras para o uso do jaleco branco.

Segundo o levantamento, estudantes negros relataram ser barrados em hospitais universitários mesmo portando crachá e vestimenta adequada. Além disso, foram registrados casos de professores que sugeriram que alunas negras prendessem ou alisassem o cabelo para manter uma aparência "mais adequada" ao ambiente hospitalar.

O estudo também aponta que o racismo é frequentemente camuflado por meio de "brincadeiras" cotidianas, piadas e comentários que reforçam estereótipos negativos. Em alguns relatos, estudantes que tentaram contestar falas racistas foram acusados de exagerar ou foram alvo de termos pejorativos.

A pesquisa detalha que obstáculos comuns a alunos cotistas, como limitações econômicas e menor acesso a materiais didáticos, são frequentemente interpretados de forma preconceituosa. Essas dificuldades, somadas à falta de apoio psicológico, são muitas vezes confundidas com incapacidade intelectual.

Como a formação clínica é afetada?

A lacuna na preparação técnica para o atendimento de pacientes negros foi identificada em uma segunda pesquisa, publicada em 2025 por Mariana Peixoto Dantas e colaboradores. O estudo, realizado com 330 estudantes de uma instituição privada em Recife, constatou uma distribuição desigual de conteúdos sobre o tema.

A discussão sobre a saúde da população negra é mais frequente em atividades de atenção primária, onde 82,4% dos alunos identificaram a abordagem. No entanto, menos da metade dos estudantes afirmou ter contato com o assunto em módulos teóricos, laboratórios e ambulatórios.

Nos laboratórios de ensino, a ausência de conteúdos específicos compromete o aprendizado de habilidades clínicas essenciais. Um exemplo citado é a dificuldade na avaliação de doenças dermatológicas quando o foco é a pele negra, o que impacta a futura prática médica.

Outro ponto de atenção é o cumprimento de protocolos oficiais de saúde. Apenas 65,8% dos estudantes relataram que a identificação da raça ou cor dos pacientes é realizada de forma rotineira, embora o procedimento seja obrigatório no Sistema Único de Saúde (SUS).

Quais as medidas propostas?

Para enfrentar o cenário de desigualdade, pesquisadores defendem que o combate ao racismo na área médica deve ir além da punição de episódios isolados. A proposta envolve a revisão de currículos acadêmicos e o fortalecimento de políticas de permanência estudantil.

As análises sugerem a implementação efetiva da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Além disso, os autores reforçam a necessidade de ampliar canais de denúncia e oferecer suporte psicológico adequado para os estudantes negros.

As pesquisas também destacam a importância da aplicação da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira. O objetivo é garantir que a formação médica contemple as especificidades étnico-raciais de forma contínua.

Atualmente, o grupo de estudantes pretos ou pardos representa cerca de 29,2% dos alunos de Medicina no Brasil, segundo dados da Demografia Médica. Esse contingente ocupa 41,6% das vagas em universidades públicas e 23% nas instituições privadas.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.