Estudo identifica como traumas na infância alteram o cérebro e aumentam risco de ansiedade
Pesquisa publicada na revista Neuron mostra que estresse precoce altera o DNA de neurônios e altera o controle da dopamina.
Por Redação Diário Local
Um estudo publicado na revista Neuron, na última quarta-feira (7), identificou que traumas vividos na infância podem causar alterações biológicas no cérebro que aumentam o risco de problemas de saúde mental no futuro. A pesquisa investigou como o estresse precoce altera o funcionamento de células responsáveis pelo controle da dopamina.
Os pesquisadores dos Estados Unidos focaram a investigação na área tegmental ventral. Essa região do cérebro é responsável pelo controle da dopamina, substância química essencial para processos de motivação, sensação de recompensa e respostas ao estresse.
Em experimentos realizados com camundongos, os cientistas observaram que o estresse sofrido nos primeiros anos de vida modifica o funcionamento das células dessa área. Essa mudança acontece devido a uma alteração na estrutura do DNA dentro dos neurônios.
Segundo o estudo, o estresse precoce faz com que o DNA na região estudada fique mais "aberto". Esse estado deixa os genes mais acessíveis e prontos para serem ativados de forma facilitada pelo organismo.
Na prática, essa configuração genética faz com que as células reajam de maneira muito mais intensa quando o indivíduo enfrenta novas situações estressantes na vida adulta. O resultado desse processo pode ser um desequilíbrio na dopamina, o que está associado a sintomas como a ansiedade.
Como o estresse altera as células?
Os cientistas identificaram que uma enzima chamada SETD7 desempenha um papel fundamental nesse mecanismo. O estudo constatou que o estresse aumenta a presença dessa enzima no organismo.
A função da SETD7 é facilitar a ativação de genes nas células que estão ligadas à produção e ao controle da dopamina. Isso cria um ciclo de maior sensibilidade ao estresse.
Para testar a influência dessa enzima, os pesquisadores elevaram artificialmente os níveis de SETD7 nos animais. Mesmo sem o contato com situações de estresse, os camundongos apresentaram sinais de ansiedade.
Em contrapartida, o estudo mostrou que a redução dessa enzima ajudou os animais a lidarem melhor com situações estressantes. Isso reforça a hipótese de que a enzima é um ponto central no processo de resposta ao trauma.
As alterações observadas funcionam como uma espécie de "marca" nas células cerebrais. Essa marca influencia a forma como o organismo reage a pressões psicológicas e físicas ao longo de toda a vida.
Embora a pesquisa tenha sido realizada com animais, os pesquisadores destacam que mecanismos semelhantes podem existir em humanos. A conclusão baseia-se nas semelhanças biológicas existentes entre as espécies.
Quais os próximos passos da pesquisa?
Os achados permitem que novos estudos investiguem o papel de experiências positivas na infância. Os cientistas querem entender se o apoio social e uma boa alimentação podem proteger as células cerebrais e reduzir os efeitos do estresse.
Ainda não há aplicação direta desses resultados no desenvolvimento de tratamentos médicos. No entanto, o estudo ajuda a identificar alvos no cérebro que podem ser investigados futuramente para prevenir ou reduzir os efeitos do trauma precoce. Procure avaliação médica para orientações sobre saúde mental.
