Estudo busca entender a origem da linguagem e a expansão das famílias linguísticas no mundo
Cientistas cruzam dados de genética e paleontologia para tentar desvendar como surgiu a capacidade de fala humana
Por Redação Diário Local
A origem da linguagem humana ainda não possui uma resposta definitiva, apesar de mais de um século de investigações científicas. Como a fala não deixa fósseis, como ossos ou ferramentas de pedra, pesquisadores precisam utilizar pistas indiretas da genética, da paleontologia e da primatologia comparada para tentar compreender o fenômeno.
Um dos indícios relevantes é o osso hioide encontrado em Atapuerca. Atribuído ao Homo heidelbergensis e datado de cerca de 530 mil anos, o osso possui forma próxima à humana atual, o que sugere que o aparelho vocal já era capaz de produzir sons articulados muito antes do Homo sapiens.
Outro dado importante é a presença do gene FOXP2 em neandertais. Esse gene está ligado a déficits de linguagem quando sofre mutação, o que reforça a busca por conexões biológicas entre diferentes espécies de ancestrais humanos.
Como a linguagem pode ter surgido?
Existem duas correntes principais de pensamento sobre a origem da capacidade de falar. A primeira, herdeira das ideias de Darwin, defende que a linguagem surgiu por meio de uma evolução gradual, partindo de gestos e vocalizações de primatas.
A segunda corrente propõe que uma mutação isolada teria instalado a capacidade de recursão sintática de forma relativamente súbita, ocorrida entre 100 mil e 200 mil anos atrás. Dentro dessa disputa, existem hipóteses que apontam para origens gestuais, musicais ou até sociais, ligadas ao crescimento e coesão dos grupos humanos.
O caso das línguas indo-europeias
O ramo indo-europeu é um dos grupos linguísticos mais bem documentados porque parte dele possui registro escrito. A partir de semelhanças sistemáticas observadas entre o sânscrito, o grego e o latim, linguistas reconstruíram o proto-indo-europeu (PIE), embora não existam textos originais escritos nessa língua.
Atualmente, duas hipóteses concorrem para localizar a pátria original desse grupo (Urheimat). A hipótese dos Kurgans situa a origem nas estepes entre o Mar Negro e o Cáspio, por volta de 4.000 a.C., ligada a pastores que dominavam o cavalo.
Já a hipótese anatólia sugere uma origem mais antiga, por volta de 7.000 a.C., associada à difusão da agricultura. Estudos de sequenciamento de DNA antigo realizados em Harvard mostram uma migração maciça de populações das estepes para a Europa central por volta de 3.000 a.C., o que dá suporte à teoria dos Kurgans.
Dessa raiz foram gerados cerca de 10 ramos, incluindo famílias como a românica (português, espanhol, francês e italiano), germânica (inglês e alemão) e eslava (russo e polonês). Outros ramos, como o celta e o grego, também derivam desse tronco comum.
As línguas no Brasil e nas Américas
Diferente do grupo indo-europeu, as línguas indígenas no Brasil não possuem um parentesco comprovado entre si. Elas se dividem em dezenas de famílias distintas, como tupi, macro-jê, aruak, karib e pano, além de idiomas isolados como o tikúna.
Estima-se que existiam mais de 150 famílias linguísticas diferentes no território brasileiro antes da colonização. Esse cenário contrasta com a organização do indo-europeu, que é composto por apenas 10 ou 11 subfamílias.
Embora a genética confirme que os povos que chegaram às Américas atravessaram a Beríngia — ponte terrestre entre a Sibéria e o Alasca — há cerca de 15 a 20 mil anos, não há prova de parentesco linguístico entre essas populações e as línguas asiáticas.
A única hipótese linguística considerada séria que liga um ramo americano à Ásia é a Dené-Yeniseiana, que relaciona o Na-Dené norte-americano ao ieniseiano siberiano. No entanto, essa conexão se aplica ao norte do continente e não alcança as regiões do Brasil.
