Crise de fertilizantes e fenômeno El Niño podem elevar preços de alimentos como arroz e café
Escassez de insumos e mudanças climáticas devido ao El Niño ameaçam produtividade no campo e devem afetar a cesta de consumo em 2027
Por Redação Diário Local
A alta nos preços dos fertilizantes e a instabilidade no transporte de insumos podem elevar o custo de alimentos essenciais, como arroz, café, trigo e laranja. O cenário de abastecimento é agravado por conflitos geopolíticos no Oriente Médio e pelo fenômeno climático El Niño, que ameaça a produtividade das lavouras.
O Brasil é altamente dependente do mercado externo para o setor, importando 85% dos fertilizantes que consome. Entre janeiro e maio deste ano, a importação de fertilizantes fosfatados caiu 45% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Consultoria Agro do Itaú BBA.
A dificuldade de abastecimento está ligada ao fluxo de transporte no Oriente Médio, especificamente no Estreito de Ormuz. A região é o quarto maior fornecedor de insumos para o Brasil, mas a instabilidade na rota, decorrente do conflito entre Estados Unidos e Irã, compromete o comércio.
De acordo com a Consultoria Agro do Itaú BBA, cerca de um terço do comércio marítimo de fertilizantes utiliza esse caminho. A região é responsável por mais de 40% das exportações globais de ureia e por uma parcela relevante da amônia e do enxofre.
A escassez de enxofre agrava o problema, pois o insumo é essencial na produção de fertilizantes fosfatados, dos quais o país importa 80% do que utiliza. Como consequência, indústrias do setor no Brasil, como a Mosaic, têm reduzido a produção.
Por que os preços dos alimentos podem subir?
A redução na aplicação de adubos pode causar queda na quantidade e na qualidade dos produtos, refletindo nos preços ao consumidor. Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, explica que a falta de fertilizante é um problema que se soma à instabilidade no campo.
Além dos insumos, o agronegócio enfrenta o impacto do El Niño. O fenômeno, marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, pode causar secas ou chuvas fora de época, prejudicando o desenvolvimento das plantações.
Para Serigati, é difícil mensurar a contribuição individual de cada choque para uma eventual alta nos preços. O impacto direto nos supermercados deve ser sentido apenas no ano que vem, já que os efeitos atingem a safra que será plantada neste semestre.
O acesso logístico também é um entrave. Segundo o pesquisador da FGV, o fertilizante pode não chegar a tempo para produtores localizados longe dos portos de entrada, como ocorre em Rondônia, já que a maior parte do adubo entra pelo Sul do país.
Quem será mais afetado pela escassez?
O perfil do produtor determina o nível de impacto. Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, afirma que grandes produtores possuem tecnologia e planejamento que reduzem os reflexos da guerra.
Por outro lado, agricultores menores, que dependem do mercado local e têm menos acesso ao crédito, tendem a reduzir a aplicação de adubo. O impacto deve ser maior em culturas de menor rentabilidade, como trigo, café, laranja e arroz.
Bruno Fonseca, analista do Rabobank, ressalta que o aumento do custo de produção atinge produtores que já enfrentam endividamento. Ele aponta que alguns agricultores podem não ter recursos para comprar fertilizantes e reduzirão o uso de nutrientes.
Embora o fósforo possa ser retirado da lavoura com cautela, pois existe estoque no solo, Fonseca explica que esse estoque vem sendo consumido nos últimos anos, o que limita novas reduções. As compras para as safras de verão já apresentam atraso.
A dependência externa deve persistir devido à queda de produtividade das fabricantes por falta de insumos. Francisco Queiroz, da Consultoria Agro do Itaú BBA, afirma que investimentos em plantas de nitrogênio no Brasil são soluções, mas sem efeito imediato na oferta.
