Estado busca chefes de facções que já não existem em estrutura de rede, avalia pesquisadora
Estratégia de focar na prisão de lideranças é ineficaz porque facções operam como redes interligadas e substituem chefes rapidamente.
Por Davy Albuquerque
A estratégia de combate ao crime organizado no Brasil, baseada na prisão ou eliminação de grandes lideranças, não é mais eficaz para desarticular as principais facções do país. O modelo de atuação do Estado ainda foca em uma estrutura hierárquica que, na prática, foi substituída por um formato de rede.
Segundo a pesquisadora Carolina Grillo, do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI-UFF), o erro central das políticas de segurança pública é tratar grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como pirâmides. Nesse modelo antigo, acreditava-se que remover o topo causaria o colapso da base.
No entanto, as organizações criminosas atuais operam de forma reticular. Isso significa que elas funcionam como uma rede de diferentes mercados interligados por atores intermediários, conectando atividades ilícitas de maneira muito mais complexa.
Nesse cenário, fenômenos como crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e crimes violentos não devem mais ser tratados como eventos isolados. Eles fazem parte de uma mesma engrenagem e de uma cadeia econômica interdependente.
Por que a prisão de chefes não desarticula as facções?
A busca por identificar, capturar ou eliminar grandes lideranças tem se mostrado uma estratégia míope. A pesquisadora explica que a posição de liderança é, na verdade, a mais facilmente substituível dentro dessas organizações.
Isso ocorre porque existe uma abundância de candidatos dentro das próprias facções prontos para assumir o comando. Muitas vezes, as disputas sucessórias acabam por reorganizar as estruturas criminosas de forma acelerada.
Além da questão das lideranças, o modelo de encarceramento em massa da base das organizações também não produziu os resultados esperados. Embora a população carcerária tenha crescido expressivamente nas últimas décadas, as grandes facções continuaram a se fortalecer.
O foco excessivo em operações ostensivas e na captura de indivíduos faz com que o Estado deixe de atacar o verdadeiro pilar de sustentação do crime: sua estrutura econômica.
Como o crime organizado opera hoje?
As organizações criminosas deixaram de depender exclusivamente do tráfico de drogas para sobreviver. Atualmente, elas articulam diversos mercados ilegais e mantêm relações permanentes com atividades da economia formal.
Essa diversificação exige uma mudança de paradigma na segurança pública. O combate precisa evoluir de operações de confronto para o foco em inteligência financeira e investigação patrimonial.
O objetivo central deve ser a desarticulação das redes que permitem às facções movimentar recursos e garantir sua sobrevivência financeira.
Para combater grupos como o PCC e o Comando Vermelho, é necessário abandonar a ideia de que existe um único "chefão" controlador. A estratégia deve priorizar a identificação dos fluxos de dinheiro e das conexões entre mercados.
Somente ao atacar as redes de proteção política e econômica será possível atingir o que sustenta, de fato, a continuidade dessas organizações no Brasil.
