Rede de apoio social é o segredo de centenários na 'zona azul' da Costa Rica
Estudos indicam que a conexão social em regiões como a Península de Nicoya reduz o risco de morte comparável ao tabagismo.
Por Redação Diário Local
O segredo para alcançar a centenariedade na Península de Nicoya, na Costa Rica, reside na forte rede de apoio social e no convívio comunitário, e não apenas em hábitos de alimentação ou exercícios físicos. A região é classificada como uma "zona azul", termo utilizado para descrever áreas com alta concentração de pessoas longevas, onde idosos permanecem integrados e ativos em suas comunidades mesmo após os 100 anos.
Na Península de Nicoya, a longevidade masculina é especialmente alta. Estudos demográficos indicam que um homem de 60 anos natural dessa região tem sete vezes mais chances de chegar aos 100 anos do que um japonês. Como essa característica não é observada em emigrantes da região, especialistas sugerem que o fator seja ambiental e social, e não apenas genético.
Diferente de muitas sociedades desenvolvidas, onde a idade cronológica costuma acompanhar o isolamento, na região costarriquenha a idade social e a biológica caminham juntas. Os centenários continuam sendo figuras centrais, atuando no cuidado de netos ou na interação com vizinhos, o que mantém o chamado "comboio de relacionamentos" — conceito que descreve o suporte de familiares e amigos ao longo da vida.
O impacto do isolamento na saúde
A ciência comprova que a companhia constante tem efeitos diretos na sobrevivência. Um estudo publicado pela revista Science indicou que o isolamento social é um fator de risco de morte de primeira ordem. Além disso, uma meta-análise envolvendo mais de 300 mil pessoas estimou que a falta de conexões sociais está associada a uma mortalidade comparável à do tabagismo.
O suporte social facilita o monitoramento da própria saúde e a identificação precoce de doenças. Em contrapartida, o desmantelamento desses laços em sociedades modernas tem gerado crises de solidão, com o aumento de lares unipessoais e a transferência do cuidado de idosos para asilos e instituições de longa permanência.
A solidão como questão de Estado
O isolamento extremo tem gerado fenômenos como o kodokushi, no Japão, que descreve a "morte na solidão", quando o corpo de uma pessoa só é encontrado semanas ou meses após o falecimento. Na Espanha, o cenário de solidão é expressivo: cerca de 2 milhões de idosos vivem sozinhos, sendo que 850 mil têm mais de 80 anos.
Diante desse cenário, diversos governos passaram a tratar a solidão como um problema de política pública e não apenas individual. O Reino Unido estabeleceu um ministério para o tema em 2018 e o Japão aprovou legislação específica em 2024. Na Espanha, o governo instituiu o Marco Estratégico Estatal de Solidões, buscando promover o planejamento urbano e iniciativas que aproximem as gerações.
