Uso constante de smartphones e notificações pode comprometer a capacidade de concentração humana
Estudos e especialistas indicam que a alternância constante entre conteúdos curtos e notificações reduz a atenção sustentada.
Por Redação Diário Local
O uso constante de smartphones e o fluxo ininterrupto de notificações digitais podem afetar o funcionamento do cérebro e a capacidade de concentração humana. A alternância frequente entre diferentes conteúdos e estímulos rápidos reduz as oportunidades de atenção sustentada, dificultando o desempenho em tarefas que exigem foco prolongado.
Pesquisas indicam que o problema não reside apenas no tempo de tela, mas na forma como o aparelho é utilizado no cotidiano. O conceito de hiperestimulação cognitiva descreve situações em que o volume e a velocidade de estímulos excedem a capacidade do cérebro de processá-los, um fenômeno muitas vezes chamado de "brain rot".
A dinâmica das plataformas digitais utiliza mecanismos de recompensa para manter o engajamento do usuário. Segundo a psicóloga Maria Clotilde Tavares, professora da Universidade de Brasília (UnB), a cada rolagem de tela existe a expectativa de encontrar novidades, o que gera pequenos picos de dopamina no organismo.
Com a exposição frequente a esses estímulos, o cérebro tende a se adaptar. A tendência é que conteúdos mais lentos percam o atrativo, enquanto o usuário passa a precisar de estímulos cada vez mais intensos para manter o mesmo nível de engajamento.
Como as notificações afetam o foco?
O psiquiatra Antônio Egidio Nardi, professor da Faculdade de Medicina e do Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a combinação de recompensas imprevisíveis, como curtidas e notificações, condiciona a busca por gratificação imediata.
Nesse cenário, o cérebro deixa de operar em ciclos longos de concentração para trabalhar em fragmentos. Esse modelo de atenção interrompida impede que o órgão descanse entre uma tarefa e outra, contrariando o processo evolutivo de foco e pausa.
A alternância constante entre redes sociais, mensagens e vídeos curtos reduz a capacidade de elaboração do que é recebido. Para o especialista, o problema não é o tempo de tela isoladamente, mas a frequência de mudanças rápidas de foco que o conteúdo impõe.
O que dizem os estudos sobre o uso de celulares?
Estudos recentes apresentam diferentes perspectivas sobre o impacto do aparelho. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports, em 2023, indicou que o desempenho de jovens adultos em testes de concentração foi pior quando o smartphone estava por perto, sugerindo que o aparelho consome recursos cognitivos mesmo sem ser utilizado.
Já um levantamento de 2025, publicado na revista European Journal in Health Psychology and Education, trouxe um contraponto. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa no desempenho apenas pela presença do celular, mas notaram que usuários mais intensos cometeram mais erros.
Esses dados reforçam que o problema está ligado ao comportamento de uso. A psicóloga Maria Clotilde Tavares destaca que a atenção funciona como uma habilidade que depende de treino constante, e a fragmentação do conteúdo prejudica a retenção de informações a longo prazo.
Quais os impactos na saúde mental e no sono?
O uso intenso de tecnologias também está associado a sintomas de ansiedade, irritabilidade e dificuldade de foco. O psiquiatra Nardi ressalta que há uma relação de via dupla: o ambiente digital pode intensificar a ansiedade, enquanto pessoas já ansiosas tendem a usar mais as ferramentas.
Uma pesquisa do Datafolha realizada em 2022, com mais de 2 mil brasileiros, corroborou essa ligação. O levantamento apontou que o uso intenso de redes sociais está associado a sentimentos de cobrança para se manter ativo online, medo de julgamento e insatisfação pessoal.
Além dos impactos psicológicos, o uso de telas durante a noite é um risco para a saúde física. A exposição prolongada à luz e aos estímulos antes de dormir pode prejudicar a qualidade do sono, processo fundamental para a restauração cognitiva do cérebro.
