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Economia

Inadimplência na Argentina atinge maior nível em duas décadas e trava recuperação econômica

Aumento nos atrasos de pagamentos de cartões e veículos impede que o crédito ao consumidor impulsione o PIB, segundo banco central.

Por Redação Diário Local

A inadimplência na Argentina atingiu o maior nível em duas décadas, alcançando 12,1% em abril, de acordo com dados do banco central do país. O aumento nos atrasos de pagamento — que inclui cartões de crédito e financiamento de veículos — tem limitado a capacidade de o consumo das famílias atuar como um motor para a recuperação econômica nacional.

O cenário ocorre em meio a um plano de reformas que busca estabilizar a economia e reduzir a inflação. Embora o país tenha registrado melhora na classificação de risco soberano, o crescimento do crédito ao consumidor enfrenta barreiras causadas pelo perfil de endividamento das famílias.

Por que o crédito não impulsiona a economia?

A consultoria 1816 Economía & Estrategia estima que mais de 25% dos tomadores de crédito na Argentina já não possuem condições de obter novos empréstimos. Esse fator impede que o gasto das famílias ajude a ampliar a recuperação econômica liderada pelas exportações.

Para Miguel Kiguel, diretor-executivo da consultoria EconViews, há uma falta de políticas para estimular a economia. Segundo ele, o estímulo fiscal é inviável por falta de recursos, enquanto o crédito é restringido justamente pela alta inadimplência.

O banco central argentino espera que o topo da inadimplência tenha ocorrido em junho, após a estabilização das taxas de juros nos últimos meses. No entanto, especialistas projetam que o crédito às famílias só recupere relevância antes das eleições de outubro de 2027.

Impacto no setor bancário

Os bancos argentinos, que expandiram a concessão de crédito recentemente, enfrentam agora dificuldades de rentabilidade. O nível de empréstimos inadimplentes voltados ao consumidor é o mais alto desde o período da crise de 2001-2002.

O ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que essa situação é uma consequência do retorno dos bancos ao seu papel tradicional de emprestar recursos, após um período em que focavam em captar depósitos para emprestar ao Tesouro ou ao banco central. Segundo ele, o crescimento rápido do crédito ocorreu sob taxas de juros muito elevadas no último ano.

Devido à deterioração do cenário, as instituições financeiras têm adotado critérios mais rigorosos. Gonzalo Fernández Covaro, diretor financeiro do Grupo Financiero Galicia, apontou a estagnação da renda das famílias como um dos motivos para a lenta recuperação do setor.

Como medida de suporte, bancos estatais como o Banco Nación e o Banco Ciudad lançaram programas de reestruturação de dívidas, oferecendo prazos maiores e custos reduzidos para os clientes em atraso.

Transição do sistema financeiro

A dificuldade financeira das famílias reflete uma mudança estrutural no país. A Argentina tenta migrar de um sistema moldado pela inflação crônica para um modelo em que os bancos lucram avaliando o risco de crédito real de consumidores e empresas.

Com a queda da inflação, que passou de patamares superiores a 200% em 2024 para cerca de 30%, o comportamento dos devedores mudou. Marcelo De Gruttola, analista da Moody’s Ratings, explicou que a redução da inflação altera a velocidade com que as dívidas perdem valor real, impactando o pagamento das parcelas.

O problema é mais acentuado no interior do país. Enquanto em Buenos Aires apenas 16% dos adultos possuem empréstimos em atraso, em diversas províncias do interior esse índice chega ao dobro, conforme dados da consultoria Equilibria.

Produzido pela redação do Diário Local com apoio de automação editorial, sob curadoria e revisão de Davy Albuquerque, editor responsável.