Executivos alertam para riscos de investimentos acelerados em ciclos de alta na mineração
CFOs de grandes mineradoras discutem em Londres a necessidade de disciplina de capital para evitar perdas e atrair investidores.
Por Redação Diário Local
Executivos do setor de mineração alertaram sobre os riscos de acelerar investimentos durante períodos de entusiasmo com os preços das commodities. O debate, ocorrido nesta sexta-feira (16) em Londres, destacou a necessidade de disciplina de capital e consistência operacional para reduzir o intervalo entre o potencial dos ativos e o valor atribuído pelo mercado.
O painel reuniu diretores financeiros (CFOs) de grandes empresas, como Vale, AngloGold Ashanti e Vulcan Energy, para discutir estratégias de crescimento, alocação de recursos e os obstáculos para atrair investidores. Entre os pontos levantados, o risco de decisões de investimento que não entregam o retorno esperado foi um tema central.
Desafios do investimento em ciclos de alta
A volatilidade dos preços e a percepção de riscos na execução de projetos foram apontadas como causas para a cautela dos investidores. Gillian Doran, da AngloGold Ashanti, afirmou que a empresa busca preservar a solidez do balanço para financiar projetos previstos para a década de 2030, mantendo ao mesmo tempo o retorno aos acionistas.
Para a executiva, a resposta para a confiança do mercado é o foco na disciplina operacional e no desempenho financeiro robusto. Segundo Doran, a companhia prefere valorizar as oportunidades de crescimento que já possui em vez de buscar expansão descontrolada.
A perspectiva de cautela também foi compartilhada por Marcelo Bacci, da Vale. O executivo citou que as dez maiores mineradoras do mundo realizaram mais de US$ 100 bilhões em write-offs (baixas contábeis de ativos) na última década, resultado de decisões de investimento equivocadas. Bacci recomendou cuidado com a velocidade das aplicações durante ciclos de preços elevados.
Volatilidade no mercado de lítio
No setor de lítio, a volatilidade é um fator adicional de risco. Felicity Gooding, da Vulcan Energy, relatou que, durante um processo de dois anos para financiamento de projeto, o preço do lítio sofreu uma queda acentuada, passando de US$ 70 mil para US$ 8 mil por tonelada.
Apesar das oscilações, a executiva destacou a importância do suporte governamental para viabilizar projetos. Do montante de € 2,2 bilhões captados pela Vulcan Energy, cerca de € 1,4 bilhão veio de instituições com apoio de governos, como o governo alemão e a União Europeia.
O projeto da companhia alemã, que une mineração de lítio e energia geotérmica, tem previsão de iniciar a produção em 2028, com capacidade para atender cerca de 500 mil veículos elétricos.
Conexão com a tecnologia
O debate também abordou a relação entre a mineração e o setor de tecnologia. Marcelo Bacci pontuou que o crescimento de data centers cria uma demanda de longo prazo por cobre, mas que essa conexão ainda precisa ser melhor explicada aos investidores generalistas.
Para garantir o fornecimento, modelos de contratos de longo prazo e acordos de offtake (compra antecipada) têm sido utilizados para sustentar o financiamento de novos projetos no setor.
