Diário Local
Saúde

Estudo aponta que adoçantes podem afetar bactérias essenciais do intestino

Pesquisa da Universidade de Cambridge mostra que adoçantes artificiais e naturais podem interferir no crescimento de microrganismos benéficos no intestino.

Por Davy Albuquerque

O uso de adoçantes artificiais e de baixa caloria pode interferir diretamente no crescimento de bactérias que auxiliam na manutenção da saúde intestinal, concluiu uma pesquisa da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. O estudo, publicado na revista científica Molecular Systems Biology, investigou como essas substâncias influenciam o microbioma e como o efeito muda quando combinadas com outros componentes.

Durante os testes realizados em ambiente controlado, os cientistas cultivaram 25 espécies de bactérias, incluindo microrganismos benéficos, neutros e potencialmente prejudiciais. Foram testadas 39 variedades de adoçantes comerciais, tanto naturais quanto artificiais, para monitorar a velocidade de multiplicação de cada espécie.

Os resultados indicaram que cerca de três quartos dos adoçantes testados afetaram o crescimento de pelo menos uma espécie bacteriana. Em diversos casos, as substâncias reduziram ou interromperam completamente o desenvolvimento de bactérias essenciais para a saúde digestiva e o funcionamento do sistema imunológico.

Como os adoçantes interagem com outras substâncias?

A pesquisa buscou entender como essas substâncias reagem quando consumidas junto com itens comuns do cotidiano, como cafeína, aromatizantes e medicamentos. Para simular a complexidade do microbioma humano, os pesquisadores criaram uma comunidade microbiana sintética contendo as 25 espécies analisadas.

A equipe identificou mais de 100 situações em que o efeito de um adoçante foi alterado pela presença de outro composto. Em 34 casos, a combinação tornou o efeito mais intenso; em 68 casos, o impacto foi reduzido. Segundo Sonja Blasche, autora principal do estudo, os adoçantes são frequentemente usados para mascarar sabores amargos em alimentos e remédios.

Qual o impacto das combinações com medicamentos?

O efeito mais acentuado ocorreu na combinação do isosteviol, um adoçante comum na indústria, com o antidepressivo duloxetina, utilizado para tratar ansiedade e dores crônicas. Quando administrados juntos, os compostos inibiram fortemente o crescimento das bactérias Roseburia intestinalis e Parabacteroides merdae, associadas ao metabolismo e à saúde digestiva.

Apesar dos achados, os pesquisadores ressaltam que os experimentos foram feitos em laboratório e não em seres humanos. No organismo, fatores como genética, dieta e a absorção química podem modificar os resultados, o que exige novos estudos para determinar os efeitos reais na saúde humana.

Para os cientistas, os dados questionam a ideia de que os adoçantes são substâncias metabolicamente neutras que apenas atravessam o sistema digestivo. Os resultados sugerem que interações entre adoçantes, medicamentos e microrganismos podem influenciar processos que vão além da digestão.

Revisado por Davy Albuquerque, editor responsável.